A
HISTÓRIA DO UNIVERSO
Capitulo I
Antes que
existisse uma estrela a brilhar, antes que houvesse anjos a cantar, já havia um
céu, o lar do Eterno, o único Deus. Perfeito em sabedoria, amor e glória, viveu
o Eterno uma eternidade, antes de concretizar o Seu lindo sonho, na criação do
Universo. Os incontáveis seres que compõem a criação foram, todos, idealizados
com muito carinho. Desde o íntimo átomo às gigantescas galáxias, tudo mereceu
Sua suprema atenção. Amante da música, Deus idealizou o Universo como uma
grande orquestra que, sob Sua regência, deveria vibrar acordes harmoniosos de
justiça e paz. Para cada criatura Ele compôs uma canção de amor. O Eterno estava
muito feliz, pois os Seus sonhos estavam para se realizar. Movendo-Se com
majestade, iniciou Sua obra de criação. Suas mãos moldaram primeiramente um
mundo de luz, e sobre ele uma montanha fulgurante sobre a qual estaria para
sempre firmado o trono do Universo. Ao monte sagrado Deus denominou: Sião. Da
base do trono, o Eterno fez jorrar um rio cristalino, para representar a vida
que d'Ele fluiria para todas as criaturas. Como sala do trono, criou um lindo
paraíso que se estendia por centenas de quilômetros ao redor do monte Sião. Ao
paraíso denominou: Éden. Ao sul do paraíso, em ambas as margens do rio da vida,
foram edificadas numerosas mansões adornadas de pedras preciosas, que se
destinavam aos anjos, os ministros do reino da luz. Circundando o Éden e as
mansões angelicais, construiu Deus uma muralha de jaspe luzente, ao longo da
qual podiam ser vistos grandes portais de pérolas. Com alegria, o Eterno
contemplou a Capital sonhada. A cidade em seu esplendor era como uma noiva
adornada, pronta para receber seu esposo. Carinhosamente, o grande Arquiteto a
denominou: Jerusalém, a Cidade da Paz. Deus estava para trazer à existência a
primeira criatura racional. Seria um anjo glorioso, de todos o mais honrado.
Adornado pelo brilho das pedras preciosas, esse anjo viveria sobre o monte
Sião, como representante do Rei dos reis diante do Universo. Com muito amor, o
Criador passou a modelar o primogênito dos anjos. Toda sabedoria aplicou ao
formá-lo, fazendo-o perfeito. Com ternura concedeu-lhe a vida; o formoso anjo,
como que despertando de um profundo sono, abriu os olhos e contemplou a face de
seu Autor. Com alegria, o Eterno mostrou-lhe as belezas do paraíso, falando-lhe
de Seus planos, que começavam a se concretizar. Ao ser conduzido ao lugar de
sua morada, junto ao trono, o príncipe dos anjos ficou agradecido e, com voz
melodiosa, entoou seu primeiro cântico de louvor. Das alturas de Sião,
descortinava-se, aos olhos do formoso anjo, Jerusalém em sua vastidão e
esplendor. O rio da vida, ao deslizar sereno em meio à Cidade, assemelhava-se a
uma larga avenida, espelhando as belezas do jardim do Éden e das mansões
angelicais. Envolvendo o primogênito dos anjos com Seu manto de luz, o Eterno
passou a falar-lhe dos princípios que haveriam de reger o reino universal. Leis
físicas e morais deveriam ser respeitadas em toda a extensão do governo divino.
As leis morais resumiam-se em dois princípios básicos: amar a Deus sobre todas
as coisas e ao próximo corno a Si mesmo. Cada criatura racional deveria ser um
canal por meio do qual o Eterno pudesse jorrar aos outros vida e luz. Dessa
forma, o Universo cresceria em harmonia, felicidade e paz. No reino de Deus, as
leis não seriam impostas com tirania; Os súditos seriam livres. A obediência
deveria surgir espontânea, num gesto de reconhecimento e gratidão. Nesse reino
de liberdade, a desobediência também seria possível. O resultado de tal
comportamento seria o esvaziamento das forcas vitais. Depois de revelar ao
formoso anjo as leis de Seu governo, o Eterno confiou-lhe uma missão de grande
responsabilidade: seria o protetor daquelas leis, devendo honrá-las e revelá-las
ao Universo prestes a ser criado. Com o coração transbordante de amor a Deus e
aos semelhantes, caber-lhe-ia ser um modelo de perfeição: seria Lúcifer, o
portador da luz. O príncipe dos anjos; agradecido por tudo, prostrou-se ante o
amoroso Rei, prometendo-Lhe eterna fidelidade. O Eterno continuou Sua obra de
criação, trazendo à existência inumeráveis hostes de anjos, os ministros do
reino da luz. A Cidade Santa ficou povoada por essas criaturas radiantes que,
felizes e gratas, uniam as vozes em belíssimos cânticos de louvor ao Criador.
Deus traria agora à existência o Universo que, repleto de vida, giraria em
torno de Seu trono firmado em Sião. Acompanhado por Seus ministros, partiu para
a grandiosa realização. Depois de contemplar o vazio imenso, o Eterno ergueu as
poderosas mãos, ordenando a materialização das multiformes maravilhas que
haveriam de compor o Cosmo. Sua ordem, qual trovão, ecoou por todas as partes,
fazendo surgir, como que por encanto, galáxias sem conta, repletas de mundos e
sóis - paraísos de vida e alegria -, tudo girando harmoniosamente em torno do
monte Sião. Ao presenciarem tão grande feito do supremo Rei, as hostes
angelicais prostraram-se, fazendo ecoar pelo espaço iluminado um cântico de
triunfo, em saudação à vida. Todo o Universo uniu-se nesse cântico de gratidão,
em promessa de eterna fidelidade ao Criador. Guiados pelo Eterno, os anjos
passaram a conhecer as riquezas do Universo. Nessa excursão sideral, ficaram
admirados ante a vastidão do reino da luz. Por todas as partes encontravam
mundos habitados por criaturas felizes que os recebiam em festa. Os anjos
saudavam-nos com cânticos que falavam das boas novas daquele reino de paz. Tão
preciosa como a vida, a liberdade de escolha, através da qual as criaturas
poderiam demonstrar seu amor ao Criador, exigia um teste de fidelidade. Com o
propósito de revelá-lo, o Eterno conduziu as hostes por entre o espaço
iluminado, até se aproximarem de um abismo de trevas que contrastava com o
imenso brilho das galáxias. Ao longe, esse abismo revelara-se insignificante
aos olhos dos anjos, como um pontinho sem luz; mas à medida de sua aproximação,
mostrou-se em sua enormidade. O Criador, que a cada passo revelava aos anjos os
mistérios de Seu reino, ficou ali silencioso, como que guardando para Si um
segredo. As trevas daquele abismo consistiam no teste da fidelidade.
Voltando-Se para as hostes, o Eterno solenemente afirmou: -"Todos os
tesouros da luz estarão abertos ao vosso conhecimento, menos os segredos
ocultos pelas trevas. Sois livres para me servirem ou não. Amando a luz
estareis ligados à Fonte da Vida". Com estas palavras, fez Deus separação
entre a luz e as trevas, o bem e o mal. O Universo era livre para escolher seu
destino.
A História do
Universo Capitulo II
O tão acalentado
sonho do Criador se concretizara. Agora, como Pai carinhoso, conduzia as
criaturas através de uma eternidade de harmonia e paz. Em virtude do
cumprimento das leis divinas, o Universo expandia-se em felicidade e glória.
Havia um forte elo de amor, que a todos unia fortemente. Os seres racionais,
dotados da capacidade de um desenvolvimento infinito, encontravam indizível
prazer em aprender os inesgotáveis tesouros da Sabedoria divina,
transmitindo-os aos semelhantes. Eram como canais por meio dos quais a Fonte da
Eterna Vida nutria a todos de amor e luz. Em Jerusalém, os ministros do reino
reuniam-se ante o soberano Rei, sempre prontos a cumprir os Seus propósitos.
Era através de Lúcifer que o Eterno tornava manifesto os Seus desígnios. Depois
de receber uma nova revelação, ele prontamente a transmitia às hostes
angelicais. Estas, por sua vez, a compartilhavam com a criação. Em célere vôo
os anjos rumavam para os planetas capitais, onde, em grandes assembléias,
reuniam-se os representantes dos demais mundos. Em muitas dessas assembléias,
Lúcifer fazia-se presente, enchendo os participantes de alegria e admiração.
Perfeito em todas as virtudes, ele os cativava com sua simpatia. Nenhum outro
anjo conseguia revelar como ele os mistérios do amor do Eterno. O Universo,
alimentando-se da Fonte da Vida, expandia-se numa eternidade de perfeita paz. A
obediência às leis divinas era o fundamento de todo progresso e felicidade.
Ainda que conscientes do livre-arbítrio, jamais subira ao coração de qualquer
criatura o desejo de se afastar do Criador. Assim foi por muito tempo, até que
tal problema irrompeu na vida daquele que era o mais íntimo do Eterno. Lúcifer,
que dedicara sua vida ao conhecimento dos mistérios da luz, sentiu-se aos
poucos atraído pelas trevas. O Rei do Universo, aos olhos de quem nada pode ser
encoberto, acompanhou com tristeza os seus passos no caminho descendente que
leva à morte. A princípio, uma pequena curiosidade levou Lúcifer a se aproximar
daquele abismo profundo. Contemplando-o, ele começou a indagar o porquê de não
poder compreender o seu enigma. Retornando a seu lugar de honra, junto ao
trono, prostrou-se ante o divino Rei, suplicando-Lhe: - Pai, dá-me a conhecer
os segredos das trevas, assim como me revelas a luz. Ante o pedido do formoso
anjo, o Eterno, com voz expressiva de tristeza, disse-lhe: - Meu filho, você
foi criado para a luz, que é vida. Convencendo-se de que o Criador não lhe
revelaria os tesouros das trevas, Lúcifer decidiu compreender por si mesmo o
enigma. Julgava-se capacitado para tanto. Com esta triste decisão, o príncipe
dos anjos permitiu que surgisse em seu coração uma mancha de pecado que poderia
trazer uma catástrofe para o Universo. Só Deus sabia o que se passava no
coração de Lúcifer. O anjo, que fora criado para ser o portador da luz, estava
divorciando-se em pensamentos do bondoso Criador que, num esforço de impedir o
desastre, rogava-lhe permanecer a Seu lado. Uma tremenda luta passou a travar-se
em seu íntimo. O desejo de conhecer o sentido das trevas era imenso, contudo,
os rogos daquele amoroso Pai, a quem não queria também perder, o torturavam.
Vendo o sofrimento que sua atitude causava ao Criador, às vezes demonstrava
arrependimento, mas voltava a cair. Antes de criar o Universo, Deus já previra
a possibilidade de uma rebelião. O risco de conceder liberdade às criaturas era
imenso, mas, sem este dom, a vida não teria sentido. O Eterno não queria reinar
sobre robôs, programados para fazerem somente a Sua vontade. Ele queria que a
obediência fosse fruto de reconhecimento e amor, por isso decidiu correr o
grande risco. Ainda que prosseguisse na busca do sentido das trevas, Lúcifer
não pretendia abandonar a luz. Esforçava-se para chegar a uma combinação entre
essas partes que, no reino do Eterno, coexistiam separadas. Finalmente, com um
sentimento de exaltação, concebeu uma teoria enganosa, que pretendia apresentar
ao Universo como um novo sistema de governo, superior ao governar do Eterno.
Denominou sua teoria de "a ciência do bem e do mal". Estruturada na
lógica, a ciência do bem e do mal se revelou atraente aos olhos de Lúcifer,
parecendo descerrar um sentido de vida superior àquele oferecido pelo Criador,
cujo reino possibilitava unicamente o conhecimento experimental do bem. No novo
sistema, haveria equilíbrio entre o bem e o mal, entre o amor e o egoísmo,
entre a luz e as trevas. Ao longo do tempo em que amadurecera em sua mente a
ciência do bem e do mal, Lúcifer soube guardar segredo diante do Universo.
Continuava em seu posto de honra, cumprindo a função de Portador da Luz.
Contudo, por mais que procurasse fingir, seu semblante já não revelava alegria
em servir ao Eterno. O divino Rei, que sofria em silêncio, procurava, por meio
de Suas revelações de amor, preparar as criaturas racionais para a grande prova
que se aproximava. Sabia que muitos dariam ouvido à tentação, voltando-Lhe as
costas. À noite da provação faria sobressair, contudo, os verdadeiros fiéis -
aqueles que serviam ao Criador não por interesse, mas por amor. Ao ver que a
hora da prova chegara, e que Lúcifer estava pronto para traí-Lo diante do
Universo, o Eterno, que jamais cessara de revelar os tesouros de Sua sabedoria,
tornou-se silencioso e contemplativo. O silêncio fez reviver no coração das
hostes a lembrança daquela primeira excursão sideral, quando, depois de lhes
mostrar as riquezas do reino da luz, Deus tornou-se silencioso ante aquele
abismo. Lembram-se de Suas palavras: "Todos os tesouros da luz estarão
abertos ao vosso conhecimento, menos os segredos ocultos pelas trevas. Sois
livres para me servirem ou não. Amando a luz estareis ligados à Fonte da
Vida". Lúcifer, que passara a cobiçar o trono de Deus, indagou-Lhe o
motivo de Seu silêncio. O Criador, contemplando-o com infinita tristeza,
disse-lhe: "É chegada à hora das trevas. Você é livre para realizar seus
propósitos". Vendo que o momento propício para a propagação de sua teoria
havia chegado, Lúcifer convocou os anjos para uma reunião especial. As hostes,
desejosas de conhecer o significado do silêncio do Pai, tomaram seus lugares
junto ao magnífico anjo, que sempre lhes revelara os tesouros do reino da luz.
Lúcifer começou seu discurso exaltando, como de costume, o governo do Eterno.
Num amplo retrospecto, lembrou-lhes as grandiosas revelações que os enriquecera
em toda aquela eternidade. O silêncio divino, apresentou-o como sendo a
indicação de que o Universo alcançara a plenitude do conhecimento oriundo da
luz. Silenciando, o Eterno abria-lhes caminho para o entendimento de mistérios
ainda não sondados, mantidos até então além dos limites de Seu governo.
Surpresas, as hostes tomaram conhecimento da experiência de Lúcifer sobre as
trevas. Com eloqüência, ele falou-lhes da ciência do bem e do mal, indicando-a
como o caminho das maiores realizações. O efeito de suas palavras logo se fez
sentir em todo o Universo. A questão era decisiva e explosiva, gerando pela
primeira vez discórdia. Os seres racionais, em sua prova, tinham de optar por
permanecer somente com o conhecimento da luz, o qual Lúcifer afirmava haver
chegado ao seu limite, ou se aventurar no conhecimento da ciência do bem e do
mal. No começo, os anjos debateram-se diante da questão, sendo logo depois todo
o Universo posto à prova. Dir-se-ia que a ciência do bem e do mal haveria de
arrebanhar a maior parte das criaturas, mas, aos poucos, muitos que a princípio
se empolgaram com a teoria, despertaram para a ilusão da mesma, reafirmando sua
fidelidade ao reino da luz. Ao fim desse conflito, que se arrastou por longo
tempo, revelou-se um terço das estrelas do céu ao lado de Lúcifer, e as
restantes, ainda que abaladas pela prova ao lado do Eterno. A ciência do bem e
do mal fora apregoada por Lúcifer como um novo sistema de governo. Mas como
exercê-lo, se o Eterno continuava reinando em Sião? Precisavam encontrar um
meio de afastá-Lo dali. O conselho, formado pelos anjos rebeldes, passou a
tratar disso. Decidiram, finalmente, solicitar-Lhe o trono por um tempo
determinado, no qual poderiam demonstrar a excelência do novo sistema de
governo. Caso fosse aprovado pelo Universo, o novo sistema se estabeleceria
para sempre; caso contrário, o domínio retornaria ao Criador. Foi assim que
Lúcifer, acompanhado por suas hostes, aproximou-se arrogante d'Aquele Pai
sofredor, fazendo-Lhe tal pedido. O Eterno não era ambicioso, apenas queria bem
às Suas criaturas. Se a ciência do bem e do mal consistisse realmente num bem
maior, não Se oporia à sua implantação, cedendo o trono a seus defensores. Mas
Ele sabia que aquele caminho conduziria à infelicidade e à morte. Movido por
Seu amor protetor, o Criador desatendeu o pedido das hostes rebeldes, que se
afastaram enfurecidas. A lhes ser negado o trono, Lúcifer e suas hostes
passaram a acusar o divino Rei, proclamando ser o seu governo de tirania.
Afirmavam ser sua permanência no trono a mais patente demonstração de Sua
arbitrariedade. Não lhes concedera liberdade de escolha? For que neutralizá-la
agora, impedindo-os de pôr em prática um sistema de governo superior? As
acusações das hostes rebeldes repercutiram por todo o Universo, fazendo parecer
que o governo do Eterno era injusto. Isto trouxe profunda angústia àqueles que
permaneciam fiéis ao reino da luz. Não sabendo como refutar tais acusações,
essas criaturas, emudecidas pela dor moral, ansiavam pelo momento em que novas
revelações procedentes do Criador pudessem aclarar-lhes os mistérios desse
grande conflito. As acusações e blasfêmias das hostes rebeldes alcançavam o
ponto culminante quando o Eterno, num gesto surpreendente, ergueu-se de Seu
trono, como que pronto a deixá-lo. Os infiéis, na expectativa de uma conquista,
aquietaram-se, enquanto um sentimento de temor penetrava no coração dos súditos
da luz. Entregaria Ele o domínio de toda a criação, para livrar-Se das vis
acusações? De acordo com a lógica a partir da qual Lúcifer fundamentava seus
ensinamentos, não restava alternativa ao Criador. Nesta tremenda expectativa, o
Universo acompanhava os passos de Deus. Num gesto de humildade, o Criador
despojou-Se de Sua coroa e de Seu manto real, depondo-os sobre o alvo trono. Em
Seu semblante não havia expressão de ressentimento ou ira, mas de infinito amor
e tristeza. Com solenidade, o Eterno proclamou que o momento decisivo chegara,
quando cada criatura deveria selar sua decisão ao lado da luz ou das trevas.
Numa ampla revelação, alertou para as conseqüências de um rompimento com a
Fonte da Vida. Com olhar de ternura o Criador contemplou seus filhos. Era um
olhar de humildade, que cheio de amor, suplicava para que permanecessem ao Seu lado.
Incontáveis criaturas, emocionadas, corresponderam ao Seu olhar de bondade,
enquanto uma multidão se manteve cabisbaixa. Lúcifer e seus seguidores estavam
conscientes da seriedade daquele momento. Ainda era possível voltar atrás em
seus planos, entregando-se arrependidos ao divino Pai que sempre os amara.
Enquanto cabisbaixos consideravam sobre a decisão final, Lúcifer e seus adeptos
ouviam o cântico daqueles que, em reconhecimento e gratidão, colocavam-se ao
lado do Eterno. A última luta travava-se no coração dos infiéis que,
estremecidos, chegaram a pensar em recuar. Finalmente, a lembrança do recente
gesto divino, despojando-Se da coroa, deu-lhes a certeza de que o governo lhes
seria entregue. Vendo que o Trono permanecia vazio, Lúcifer e suas hostes,
dominados pela cobiça, romperam definitivamente com o Criador Ao ver um terço
dos súditos transpor as divisas da eterna separação, Deus deixou extravasar a
dor angustiante que por tanto tempo martirizava Seu coração, curvando-Se em
inconsolável pranto. Contemplando Seus filhos rebeldes, ergueu a voz numa
lamentação dolorosa: "Meus filhos, meus filhos! Já não posso chamá-los
assim! Queria tanto tê-los nos braços meus! Lembro-Me quando os formei com
carinho! Vocês surgiram felizes e perfeitos, em acordes de esperança em eterna
harmonia! Vivi para vocês, cobrindo-os de glória e poder! Vocês foram a minha
alegria! Por que seus corações mudaram tanto? O que mais poderia eu ter feito
para fazê-los permanecer comigo? Hoje minh'alma sangra em dor pela separação eterna!
Como olharei para os lugares vazios onde tantas vezes rejubilantes ergueram as
vozes em hosanas festivas, sem me vir à mente um misto da felicidade e dor?!
Saudade infinita já invade o meu ser, e sei que será eterna! Hoje o meu coração
rompeu e quebrou-se; as cicatrizes carregarei para sempre! Depois de proclamar
em pranto tão dolorosa lamentação, o Eterno, dirigindo-Se a Lúcifer, o causador
de todo o mal, disse: "Você recebeu um nome de honra ao ser criado. Agora
não mais o chamarão Lúcifer, mas Satã, o inimigo do Criador e de Suas
leis." Depois de lamentar a perdição das hostes rebeldes, o Eterno, em
lentos passos, ausentou-se do jardim do Éden, lugar do trono Universal.. Onde
seria agora a Sua morada? As hostes fiéis acompanharam reverentes os Seus misteriosos
passos de abandono, que pareciam descerrar um futuro difícil, de sofrimentos e
humilhações. Ocupariam os rebeldes o divino trono, profanando-o como domínio do
pecado? Esta indagação torturava o coração dos súditos do Eterno. Deixando Sua
amada Cidade, o Senhor da luz conduziu-Se, em meio às glórias do Universo, em
direção do abismo imenso, a respeito do qual silenciara até então. Ali
deteve-Se mais uma vez, emudecido, enquanto parecia ler nas trevas um futuro de
grandes lutas. Ante o sofrimento do Eterno, expresso na tristeza de Seu
semblante, os fiéis puderam finalmente compreender o significado daquele
misterioso abismo: consistia numa representação simbólica do reino da rebeldia.
Na face entristecida de Deus manifestou-se, por fim, um brilho que aos fiéis
animou. Erguendo os poderosos braços ante as trevas, ordenou em alta voz:
"Haja luz." Imediatamente, a luz de Sua presença inundou o profundo
abismo e, triunfando sobre as trevas, revelou um mundo inacabado, coberto por
cristalinas águas. Com esse gesto, iniciava o Eterno uma grande batalha pela
reivindicação de Seu governo de luz; batalha do amor contra o egoísmo; da
justiça contra a injustiça; da humildade contra o orgulho; da liberdade contra
a escravidão; da vida contra a morte. Batalha que, sem trégua, se estenderia
até que, no alvorecer almejado, pudesse o divino Rei retornar vitorioso ao
santo monte Sião, onde, entronizado em meio aos louvores dos remidos, reinaria
para sempre em perfeita paz. As trevas, em sua fuga, apontavam para o aniquilamento
final da rebeldia. As águas abundantes que cobriam aquele mundo, até então
oculto, simbolizavam a vida eterna que para os fiéis seria conquistada pelo
amor que tudo sacrifica. O mundo revelado era a Terra. Visitada pelas trevas e
pela luz, ela seria o palco da grande luta. Rejubilavam-se os fiéis ante o
triunfo da luz naquele primeiro dia, quando as trevas em sua fúria rolaram
sobre o planeta, sucumbindo-o em densa escuridão. A luz, que parecia vencida,
renasceu vitoriosa num lindo alvorecer. Ao raiar a luz do segundo dia, o Eterno
ordenou: "Haja uma expansão no meio das águas, e haja separação entre água
e águas." Imediatamente, o calor de Sua luz fez com que imensa quantidade
de vapor se elevasse das águas, envolvendo o planeta num manto de transparência
anil. Surgiu assim a atmosfera, com sua mistura perfeita de gases que seriam
essenciais à vida que em breve coroaria o planeta. O Criador, contemplando a
expansão, denominou-a "céus". A atmosfera, que cheia de brilho
envolvia a Terra, sombreou-se ao sobrevir o crepúsculo de um outro entardecer.
A História do
Universo Capitulo III
Ao serem vencidas
as trevas no terceiro dia, o Criador prosseguiu Sua obra, fazendo surgir os
imensos continentes que ainda estavam sob a superfície das águas. Com as mãos erguidas
ordenou: "Ajuntem-se às águas debaixo dos céus num lugar e apareça a
porção seca." Em pronta obediência, as cristalinas águas cederam sua
posição superior à porção seca que se ergueu, sobrepondo-se a elas. Nas regiões
baixas da Terra, as águas continuariam refletindo o brilho celeste, sendo um
refrigério para as criaturas sedentas. Nesse gesto de humildade, as águas
prefiguravam o Criador, que na grande luta desceria ao mais profundo abismo
para fazer renascer nas almas sedentas a vida eterna. Contemplando a face
daquele novo mundo, o Eterno denominou a parte seca "terra", e ao
ajuntamento das águas chamou "mares". Com Sua poderosa voz
prosseguiu, ordenando: "Produza a terra erva verde, erva que dê semente,
árvore frutífera que dê fruto segundo a sua espécie, cuja semente esteja nela
sobre a terra." Em obediência ao mando divino, a superfície sólida do
planeta revestiu-se de toda sorte de vegetação: lindos prados a florir, campos
verdejantes entrecortados por rios cristalinos, florestas sem fim onde árvores
frondosas deixavam pender frutos saborosos de infindáveis espécies. A Terra era
como uma tela onde o Criador, pelo poder de Sua palavra, coloria quadros de
beleza sem par. Enquanto com admiração as hostes contemplavam as belezas
daquela criação, surpreenderam-se ao reconhecer sobre o novo planeta o jardim
do Éden, lugar do trono divino. O Eterno, pelo poder de Sua palavra, o havia
transferido para o seio daquele mundo especial, onde em justiça seria
confirmado o governo do Universo. Naquele dia primaveril, a brisa acariciou
mansamente as verdes florestas e os prados em flor, inundando a atmosfera com
suave aroma e frescor. Contemplando Sua obra, o Criador com felicidade
exclamou: "Eis que tudo é muito bom." Exuberante, o planeta cumpriu mais
um dia em sua harmoniosa rotação. As hostes fiéis agora podiam compreender
melhor a importância da luz divinal. Sua ausência havia ofuscado, naquela
noite, as belezas de Sião. Nesse novo dia, o Criador expressaria o Seu grande
poder, dando à Terra luminares que a encheriam de luz e calor. Esses luminares
permaneceriam para sempre como símbolos da presença espiritual do Eterno, que é
a fonte de toda a luz. Contemplando o espaço escuro e vazio que se estendia ao
redor da Terra, com potente voz ordenou: "Haja luminares na expansão dos
céus, para haver separação entre o dia e a noite; sejam eles para sinais e para
tempos determinados, para dias e anos. E sejam para luminares na expansão dos
céus para alumiarem a Terra." Imediatamente, o espaço tornou-se radiante pelo
brilho do sol e pelo reflexo de planetas e satélites. Ante esta demonstração de
poder, as hostes fiéis curvaram-se em reverente adoração. No quarto dia, o
Eterno criou os mundos de nosso sistema solar não para serem habitados como a
Terra, mas para o equilíbrio do sistema. Encheriam também o céu de fulgor,
abrandando as trevas das noites terrenas. Volvendo os olhos para a Terra, as
hostes alegraram-se por vê-la radiante em cores. Bem próximo dela podia-se ver
a Lua que, com seu reflexo prateado, afugentaria as profundas sombras noturnas.
Envolvidos por esse cenário encantador, os filhos da luz, rejubilantes,
saudaram o alvorecer do quinto dia, que seria de muitas surpresas. O Eterno
tornaria a Terra festiva pela presença de infindáveis espécies de animais irracionais
que habitariam toda a superfície do planeta. Essa criação teria continuidade no
sexto dia. Erguendo as poderosas mãos, o Criador, olhando primeiramente para as
cristalinas águas, ordenou: "Produzam as águas abundantemente répteis de
alma vivente." De imediato, as águas tornaram-se ondulantes pela presença
de incontáveis espécies de répteis que, felizes e gratos, festejavam a
existência num contínuo nadar e saltitar. Desde os seres microscópicos até as
grandes baleias, todos surgiram em completa harmonia, refletindo em sua
natureza o amor do Criador. Pousando os olhos sobre a atmosfera anil que
repousava sobre as verdejantes florestas, o Eterno continuou: "Voem as
aves sobre a face da expansão dos céus". Mediante Sua ordem, os Céus
encheram-se de pássaros coloridos que, voando em todas as direções, tinham no
coração um cântico de gratidão pela vida. Esse cântico encheu o ar,
misturando-se com o perfume das matas floridas. Contemplando com prazer Suas
criaturas terrenas, o Eterno abençoou-as dizendo: "Frutificai e
multiplicai-vos e enchei as águas nos mares, e as aves se multipliquem na
Terra." Rejubilantes, as hostes fiéis presenciaram o alvorecer do sexto
dia. O que criaria Deus nesse novo dia? Esta indagação pairava na mente de
todos os seres racionais. Estavam certos de que algo muito especial estava para
acontecer. Erguendo os potentes braços, o Eterno ordenou: "Produza a Terra
alma vivente conforme a sua espécie: gado, répteis e bestas-feras da terra,
conforme a sua espécie." Sua voz poderosa foi prontamente ouvida e, nas
florestas e campos, pôde-se ver o resultado de Seu poder criador. Animais de
todas as espécies despertaram numa existência feliz, em meio a um paraíso de
perfeita paz. A Terra tomara-se extremamente bela, qual princesa adornada para
receber o seu rei e senhor. Quem seria esse ser especial? Movendo-Se com
majestade, o Eterno baixou às glórias do novo mundo, dirigindo-Se ao jardim do
Éden, lugar do divino trono. Os anjos da luz acompanharam-nO reverentes,
detendo-se qual nuvem sobre os céus do paraíso. Todo Universo observava com
profundo interesse o desdobramento dos atos do Criador, em resposta às
acusações de seus inimigos. O momento era decisivo. Tudo indicava que o Eterno
demonstraria não ser tirano nem egoísta, coroando alguém sobre o monte Sião.
Satã e seus seguidores não duvidavam de que o reino lhes seria entregue e
reinariam vitoriosos no seio daquele antigo abismo, onde as trevas e a luz
agora se entrelaçavam. Os súditos da luz estremeceram ante essa perspectiva.
Junto à fonte do rio da vida, o Eterno curvou-Se solenemente e, com os
elementos naturais da Terra, começou a moldar, com muito carinho, uma criatura
especial. Depois de alguns instantes, estava estendido diante do Criador o
corpo, ainda sem vida, do primeiro homem. O Eterno contemplou-o e, após
acariciar-lhe a face fria e descorada, soprou-lhe nas narinas o fôlego da vida
e o homem começou a viver. Como que despertando de um sono, o homem abriu os
olhos e contemplou a face meiga de Seu Criador que, sorrindo, beijou-lhe a face
agora corada e cheia de vida. Emocionou-se ao ouvir o Eterno dizer-lhe com voz
suave e cheia de afeição: "Meu filho, meu querido filho!" Por ter
nascido do solo, o primeiro homem recebeu o nome de Adão. Tomando-o pela mão, o
Eterno levantou-o. Sem perceber o cenário de fulgor que o circundava, Adão, num
gesto de gratidão pela existência, envolveu o Criador num terno abraço,
prostrando-se em reverente adoração. As hostes fiéis que admiradas
testemunhavam a grandiosa realização divina, emocionadas ante o gesto humano,
prostraram-se também em reverente adoração. Uniram então as vozes num cântico
de júbilo em saudação àquela criatura especial, que despertava para a vida num
momento tão decisivo para o Universo. Com o coração cheio de felicidade, Adão uniu-se
aos anjos em seu cântico de louvor. Sua voz, ao ecoar pelos arredores floridos,
misturou-se ao canto das aves e ao mugir de animais que se aproximavam em
festa. Num passeio de surpresas inesquecíveis, Adão foi conscientizado das
belezas de seu lar. Com admiração, contemplou o monte Sião, donde jorrava o rio
da vida, numa cascata de luz. O glorioso monte jazia coroado por um lindo
arco-íris. Em seus passos, seguiu o curso do cristalino rio, que deslizava
sereno em meio às maravilhas do Éden. Admirava-se das altaneiras árvores que,
embaladas pela brisa, deixavam pender dos ramos abundantes flores e frutos.
Inclinava-se aqui e acolá, atraído pelo fulgor de pedras preciosas que por
todas as partes enfeitavam o gramado. Com intensa alegria, Adão tomava conhecimento
das infindáveis espécies de animais que povoavam o jardim. Todos eram mansos e
submissos e viviam em perfeita harmonia e felicidade. Detendo-se em seus
passos, Adão admirou-se da alvura e meiguice de um animalzinho que brincava no
gramado. Aproximando-se, tomou-o em seus braços, dedicando-lhe um afeto
especial. Como era agradável acariciar sua alva lã! Seus olhinhos meigos
refletiam um brilho de amor e humildade. Havia algo de especial naquele
animalzinho. Afetuosamente, Adão chamou-o de "cordeiro". Com o
animalzinho em seus braços, Adão olhou agradecido para o Eterno e O adorou.
Contemplando Suas alvas vestes, Seus olhos expressivos de um amor sem par, Adão
descobriu que tinha nos braços um símbolo de seu Autor. Feliz, exclamou:
"Oh, Senhor, este cordeirinho revestido de tão branca lã, com olhar
expressivo de tanto amor, se parece Contigo. Eu quero tê-lo sempre junto a
mim." Observando os animais, Adão percebeu que eles desfrutavam de um
companheirismo especial. Via por toda parte casais felizes que viviam um para o
outro. Seus pensamentos voltaram-se para o Seu Companheiro. Olhou ao derredor e
ficou surpreso por não vê-Lo. O Eterno havia Se ocultado propositalmente,
tornando-Se invisível. Adão sentia-se solitário em meio àquele paraíso. Com
quem partilharia sua felicidade e seu amor? Havia ali os animais, mas eles eram
irracionais, não podendo compartilhar de seus ideais. Nascia em seu coração, ao
caminhar solitário naquele entardecer, um desejo ardente de encontrar alguém
que pudesse estar sempre a seu lado. Enquanto Adão olhava para as distantes
colinas na esperança de ver alguém, o Eterno apresentou-Se ao seu lado e
disse-lhe: "Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma
companheira." Adão ficou feliz ao ouvir do Criador essa promessa,
justamente no momento em que tanto ansiava ter alguém para estar sempre visível
a seu lado. Tomado por um profundo sono, Adão reclinou-se no peito de seu
amoroso Criador que, com carícias, o fez adormecer. Em seu subconsciente
surgiram os primeiros sonhos coloridos: Contempla o olhar meigo do Eterno; ouve
o som harmonioso da música angelical; descobre as maravilhas ao derredor: o
monte Sião com seu arco-íris; o rio da vida; os prados em flor; os animais que
o saúdam em festa. Repetem-se em seus sonhos as cenas que o envolveram em seu
anseio; olha ao derredor na esperança de encontrar seu companheiro, mas não o
vê. Sente-se solitário em seu sonho, e isso o faz procurar alguém com quem
possa compartilhar sua existência. Seu olhar estende-se por campinas
verdejantes, divisando ao longe colinas floridas. Enquanto caminha esperançoso,
sente a brisa mansa a afagar-lhe os cabelos macios. Conversa com a brisa:
"Brisa, você parece ser quem tanto procuro; você me afaga os cabelos;
beija minha face; você tem o perfume das verdes matas. Se eu pudesse ver sua
face, beijá-la-ia; se eu pudesse tocar os seus cabelos, faria longas tranças e
as enfeitaria com as flores do nosso jardim!" Após caminhar em sonho pelos
prados do paraíso, Adão deteve-se enquanto contemplava a paisagem ao redor.
Admirou-se por não ver o efeito da brisa nos ramos floridos. Mas como, se a
sentia calidamente no rosto? Começou então a despertar de seu sonho. Ainda com
os olhos fechados lembrou-se do momento em que, sonolento, recostara-se no
peito do Eterno. Seria a brisa o afago de Suas mãos? Com esta indagação abriu
os olhos e emocionou-se ao contemplar uma linda mulher que, com as mãos
perfumadas, acariciava-lhe a face com amor. Era a brisa de seu sonho; a
promessa de um Criador que só queria fazê-lo feliz. Agora Adão era completo,
pois tinha Eva, que era carne de sua carne e ossos de seus ossos. Tomando-a
pela mão, Adão convidou-a para um passeio de surpresas inesquecíveis. Mostraria
à sua companheira as belezas de seu lar. Sensibilizada Eva detinha-se a cada passo,
atraída pelas flores que exalavam suaves perfumes; pelos pássaros que gorjeavam
alegres cantos; pelos animais que os seguiam submissos; pela vegetação de ricos
matizes; pelas águas cristalinas do rio da vida que jorravam em cascata do
monte Sião. Tudo no paraíso era perfeito e belo, mas nada se igualava ao ser
humano, criado à imagem de Deus. Voltaram-se um para o outro em admiração e
carícias. Embalados por esse amor, permaneceram até o entardecer. Com deleite,
o jovem casal passou a contemplar o sol poente que, através de rosados raios,
coloria o céu em lindo arrebol. Era o sexto dia que chegava ao seu final, dando
lugar às horas de um dia especial: o sábado. Esse dia, em seu significado,
seria solene para todos os súditos do Eterno, pois seu alvorecer traria a
vitória para o reino da luz. O sol, que durante o sexto dia alegrara a natureza
com seu brilho e calor, ocultou-se, deixando-a em frias sombras. Os alegres
pássaros, silenciando seus trinos, buscavam seus ninhos enquanto os outros
animais se recolhiam. Somente o casal permaneceu imóvel, procurando divisar, no
último lampejo que se apagava no horizonte, a esperança de um novo alvorecer.
Indagavam o sentido das trevas quando, por entre as ramagens, viram um lindo
luar, cujos raios prateados banhavam a natureza em suave luminosidade. Todo o
céu estava iluminado pelo fulgor das estrelas. Admirados, descobriram que a
noite somente era trevas quando se olhava para baixo. Adão e Eva em sua
inocência não sabiam que aquela noite simbolizava o futuro sombrio da
humanidade. Quando o compreendessem, ficariam confortados ao contemplar o
fulgor dos céus: o luar falaria de esperança e as estrelas cintilantes
testemunhariam o interesse das hostes da luz em aclarar-lhes as trevas morais,
dando alento aos pecadores. Mas seriam iluminados apenas aqueles que, desviando
os olhos da Terra, contemplassem os altos céus. Após contemplar por algum tempo
o céu em sua luminosidade, o casal, lembrando-se das belezas do paraíso, volveu
os olhos, buscando divisá-las. Estavam, porém, ocultas em meio às sombras.
Quanto almejavam o alvorecer, pois somente ele traria consigo o paraíso! Ante o
anseio do coração humano, o Eterno surgiu em meio às trevas, devolvendo ao
casal a alegria de se encontrar novamente num jardim colorido. Banhados em
suave luz, caminhavam agora por prados verdejantes e floridos. o brilho do
Criador despertava a natureza por onde passavam, colorindo e alegrando tudo em
derredor. O casal, admirado, aprendeu que ao lado do Eterno poderiam ter um
paraíso em plena noite. Sentindo-se sonolentos, Adão e Eva recostaram-se no
colo do amoroso Pai, que os faz adormecer docemente, esperançosos de um
despertar feliz. Deitando-os sobre a relva macia, o Eterno elevou-Se indo para
junto das hostes contemplativas. Voltaria a manifestar-Se ao alvorecer, fazendo
o casal despertar para o mais solene acontecimento, que reduziria a pó as vis
acusações dos inimigos. A noite escura e fria, através de suas longas horas,
parecia zombar da luz. Ofuscaria para sempre as belezas da criação? Oh, jamais!
O sol não recuaria ante a imponência das trevas; surgiria em breve como um
libertador, arrebatando com seus cálidos raios a natureza das frias garras,
dando-lhe vida e cor. Num último desafio, as trevas tornaram-se densas nas
horas que antecederam o alvorecer. A noite arregimentava suas forças para lutar
pelo domínio usurpado. Finalmente, surgiu no leste um lampejo que parecia falar
de esperança em um novo dia. O céu aos poucos tornou-se colorido de um vermelho
vivo. As trevas impotentes recuaram ante a força crescente da luz e foram
consumidas em sua fuga. A natureza começou a despertar da longa noite,
refletindo em seu seio os saudosos raios. Flores abriram-se, exalando perfumes
de alegria; animais e aves, silenciados pela noite, uniram as vozes num cântico
triunfal em saudação ao alvorecer daquele dia grandioso. A negra noite chegara
ao fim, dando lugar à luz do dia sonhado - dia que para Deus tinha um sentido
especial, pois prefigurava a final vitória de Seu reino sobre o domínio da
rebeldia. O Eterno agora despertaria Seus filhos humanos que, banhados pela luz
de Sua presença, haviam adormecido na esperança de um alvorecer feliz. Numa
marcha festiva, todas as hostes santas, com cânticos de vitória,
acompanharam-nO rumo ao paraíso banhado em luz. Quando já estavam próximos, o
Criador deteve-Se contemplando o casal adormecido, e exclamou suavemente:
"Acordem meus filhos." Sua voz penetrou nos ouvidos de Adão e Eva,
despertando-os para a mais feliz comunhão. Quão depressa raiara a acalentada
manhã, trazendo em sua luz o doce paraíso, perdido naquela noite! Com alegria o
casal saudou o divino Criador, unindo-se aos anjos em antífonas triunfais. O
Universo vivia um momento deveras solene. Naquela manhã festiva, o Eterno
haveria de revelar a grandeza de Seu caráter, que é justiça e amor. As
acusações de que Seu governo era de egoísmo e tirania seriam refutadas. Aos
olhos de todas as criaturas racionais do vasto Universo, Deus conduziu o jovem
casal ao monte Sião, lugar do divino trono. Ali, ante o estremecimento das
hostes emudecidas, o Criador, num gesto surpreendente, cobriu o homem com o
manto real, colocando sobre sua cabeça a coroa que fora cobiçada por Lúcifer.
Movidos por profunda gratidão pela suprema honra conferida, Adão e Eva
prostraram-se reverentes, depondo aos pés do Criador sua coroa preciosa, em
sinal de submissão. Seguiu-se a esse gesto humano um brado de vitória que
sacudiu toda a Criação. Os filhos da luz, que por tanto tempo haviam sofrido
afrontas e humilhações ante as constantes acusações das hostes rebeldes,
exaltaram em retumbante louvor o Deus bendito, que em Sua obra de justiça
desmentira os inimigos, revelando Seu caráter de humildade, desprendimento e
amor. Tendo constituído o homem como o senhor de toda a criação, o Eterno, com voz
solene, passou a conscientizá-lo da grandiosidade de sua missão. Como um
mordomo fiel, deveria cuidar do paraíso, mantendo límpida a fonte do rio da
vida. As leis da justiça e do amor, fundamentos do reino da luz, deveriam ser
honradas. Como um cetro racional, caberia ao homem, em gesto de reconhecimento
e gratidão, aceitar livremente o governo d'Aquele que o criou. As hostes, que
maravilhadas testemunhavam a revelação do desprendimento divino, compreenderam
que o Senhor da Luz não governaria mais o Universo, a não ser com o
consentimento humano. O homem, pela vontade do Eterno, fora feito o árbitro da
criação; em seu glorioso ser, feito à imagem do Criador, resplandecia o selo do
eterno domínio. Após revelar ao casal a infinita honra e responsabilidade de
sua missão, o Criador conscientizou-o do conflito espiritual que se travava
pela conquista do domínio universal: Lúcifer, que por incontáveis eras servira
ao divino Rei em Sião, havia sido corrompido pelo orgulho e pelo egoísmo, sendo
seguido por um terço das hostes racionais; buscavam agora destronar o Eterno,
desonrando-O com vis acusações. Tendo revelado ao ser humano a dolorosa
situação em que o Universo se encontrava, o Eterno, num gesto solene,
mostrou-lhe duas altaneiras árvores que, carregadas de grandes frutos, se
erguiam em ambas as margens do rio que nascia do trono. A que se elevava à
direita revelou o Senhor ser a árvore da vida monumento do reino da luz. A que
se erguia à outra margem revelou ser a árvore da ciência do bem e do mal -
símbolo da rebeldia. Comendo do fruto da árvore da vida, o homem manifestaria
sua submissão ao Criador, que é Fonte de vida e luz. Comer da outra árvore
seria entregar ao inimigo o domínio de Sião. O inevitável resultado desse passo
seria a morte eterna, não somente para o ser humano, mas para toda a criação,
que se reduziria ao caos sob a fúria da rebeldia. Após contemplar demoradamente
as duas altaneiras árvores, que externavam em seus frutos tão infinita
responsabilidade, Adão prostrou-se ante o Criador, dizendo: "Digno és
Senhor de reinar sobre o Universo, pois pela Tua sabedoria, amor e poder todas
as coisas foram criadas e subsistem." O sábado, emblema do triunfo divino,
encheu-se de louvor. Todos os filhos da luz uniram-se ao ser humano no mais harmonioso
cântico de exaltação Àquele cuja grandeza é sem par. Foi com espanto que Satã e
seus seguidores testemunharam a grandiosa realização do Eterno. Presenciaram
com amargura a alegria dos fiéis ante a coroação do homem- acontecimento que
lançara por terra as fortes acusações que eles haviam levantado contra o
governo divino. Cheios de frustração e ira, consideravam agora sua triste
condição. Quão terrível e humilhante era-lhes o pensamento de verem seus planos
de rebeldia desfazerem-se diante do Criador, semelhantes às sombras daquela
noite. Se pudessem, pensavam, encheriam o sábado de trevas, banindo da mente
dos súditos do Eterno qualquer esperança de vitória. Finalmente, em suas
considerações, Satã e seus liderados compreenderam que lhes restava uma
oportunidade: no meio do jardim do Éden, nas alturas de Sião, elevava-se, junto
ao rio da vida, a árvore da ciência do bem e do mal. Bastaria um gesto humano,
nada mais, e teriam sob seu poder, para sempre, o domínio cobiçado. Mas como
seduzi-lo? Animado ante a perspectiva de uma conquista, Satã procurou, com
engenhosidade, arquitetar um plano de abordagem. Sabia que, se falhasse em sua
tentativa, todas as esperanças de triunfo ter-se-iam diluído, desfazendo-se
todos os seus sonhos de aventura. Concluiu que o engano haveria de ser sua
poderosa arma. Não fora através dele que conseguira dominar um terço das hostes
celestes?! Aguardaria, portanto, um momento propício para armar sua cilada.
A História do
Universo Capitulo IV
No Éden pairava a
doce calma de uma perfeita paz. Por todos os lados os amáveis passarinhos
faziam ouvir seus alegres trinos em louvor constante ao Criador. Toda a
natureza a florir parecia proclamar um reino de eterna alegria. Os animais em
união brincavam por toda parte, sempre submissos ao homem, o senhor daquele
paraíso encantador. Tudo era felicidade para o casal; mas esta tornava-se mais
intensa na viração daqueles dias primaveris. O arrebol, que com sua beleza
coloria o céu prenunciando as escuras noites, anunciava-lhes também o momento
da visita diária do Eterno. Juntos, sob a luz de Sua presença, passavam longo
tempo em feliz conversação. Com ânimo, o casal contava ao Senhor as
surpreendentes maravilhas que iam descobrindo a cada dia na natureza. Deus, com
carinho, descerrava-lhes o significado de cada ser. Como ficavam gratos pelas
lindas lições aprendidas a Seus pés! A cada dia que passava, maior era o amor,
o respeito e a admiração pelo grandioso Criador. Como Ele fora bom, trazendo-os
à existência e concedendo-lhes um lar tão cheio de delícias! Ao despertarem
para as alegrias de cada dia, vinham-lhes à lembrança as carícias e o doce
canto do Eterno, que os fazia adormecer todas as noites. A vida de Adão e Eva
no Éden não era de ociosidade. A eles foi recomendado o cuidado do jardim. Sua
ocupação não era cansativa, ao contrário, era agradável e revigorante. O
Criador indicara o trabalho como uma fonte de benefícios para o homem, a fim de
ocupar-lhe a mente e fortalecer-lhe o corpo, desenvolvendo-lhe todas as
faculdades. Na atividade mental e física, o homem encontrava um elevado prazer.
Era comum ao jovem casal receber visitas de seres celestes. Aos visitantes
sempre tinham novidades a relatar e perguntas a fazer. Passavam longo tempo
ouvindo deles sobre as maravilhas do reino de luz. Através desses visitantes,
Adão e Eva passaram a ter amplo conhecimento da rebelião de Lúcifer e de suas
eternas conseqüências. Aos visitantes, Adão e Eva sempre pediam que lhes
ensinassem os harmoniosos cânticos celestiais. Como se deleitavam ao unirem as
vozes ao coro angelical! Em Sua onisciência, Deus tinha conhecimento do
terrível intento do inimigo. Convocando as Suas hostes principais, revelou-lhes
com pesar o iminente perigo que pairava sobre o Universo. Satã haveria de armar
uma cilada, a fim de levar o homem a comer da árvore da ciência do bem e do
mal. Ante essa revelação, os filhos da luz ficaram temerosos, pois conheciam a
tremenda facilidade de Satã em enlaçar criaturas inocentes e atirá-las em suas
malhas de morte. No solene concílio, decidiram enviar, com urgência,
mensageiros para advertirem o homem do grande perigo. Dois poderosos anjos
foram encarregados dessa decisiva missão. Imediatamente, os mensageiros
comissionados irromperam pelos portais de Jerusalém, alcançando o seio do
espaço infinito. Em instantes, transpuseram imensidões, cruzando galáxias no
percurso. Penetraram no túnel da constelação de Orion, aproximando-se do novo
sistema. Podiam agora divisar a pouca distância o planeta azul, onde o destino
do Universo estava para ser decidido. No Éden, havia descontração. O jovem
casal continuava em suas inocentes atividades, desfrutando o prazer de um viver
feliz. Longe estavam de pensar que naquele momento todo o todos os filhos da
luz estavam tensos, pensando em seu futuro ameaçado. Viram então no límpido céu
o sinal da aproximação dos visitantes celestes e a eles ergueram os braços numa
alegre saudação. Adão e Eva admiraram-se, porém, por não verem no semblante
deles a mesma alegria. Os visitantes traziam na face uma expressão de anseio
que eles não podiam entender. Tentaram mudar-lhes a triste feição,
contando-lhes as novas descobertas feitas no paraíso. Os mensageiros, todavia,
não tendo tempo disponível como outrora, interromperam-nos com palavras de
advertência. Satã haveria de armar-lhes uma cilada, a fim de levá-los a comer
do fruto da árvore da ciência do bem e do mal. Se dessem ouvi dos à tentação,
fariam sucumbir toda a criação no abismo de um eterno caos. Os anjos
lembraram-lhes que o reino lhes fora confiado como um sagrado depósito, devendo,
em uma vida de fidelidade, honrar Aquele que por amor esvaziou-Se, colocando-Se
numa posição de hóspede do ser humano. Adão e Eva deveriam ser firmes ante as
insinuações do inimigo, pois assim selariam a eterna vitória do reino da luz.
Falando-lhes da feliz recompensa que se seguiria ao seu triunfo, os anjos
revelaram que era plano de Deus a transferência de Jerusalém Celeste para a
Terra. Ali, novamente acoplada ao paraíso, permaneceria para sempre. E o homem,
submisso ao Criador, reinaria pelos séculos sem fim sobre o monte Sião, em meio
aos louvores das hostes universais. Mas tudo isso dependia inteiramente do
posicionamento humano frente às tentações do inimigo, que faria de tudo para
arrebatar-lhe o reino. Adão e Eva ficaram temerosos ao conhecerem os planos de
Satã, mas foram consolados ao saberiam que ele não poderia fazer-lhes nenhum
mal, forçando-os a comer do fruto proibido. Se, porventura, procurasse
intimidá-los com seu poder, todas as hostes do Eterno viriam em seu socorro. Os
mensageiros da luz concluíram sua missão recomendando ao casal permanecerem
vigilantes, tendo sempre em mente a responsabilidade que sobre eles repousava.
Não deveriam separar-se um do outro, nem por um momento sequer, pois a sós
poderiam ser seduzidos. Adão e Eva, agradecidos pelas advertências dos anjos,
uniram as vozes num cântico de promessa em uma eterna vitória. Estavam certos
de que jamais abandonariam o bendito Criador, ouvindo a voz do tentador.
Animados ante a promessa humana, os dois mensageiros retornaram ao seio da
Jerusalém Celeste onde, junto às hostes santas, aguardariam com anseio o
anelado triunfo. Satã viu aproximarem-se do paraíso os mensageiros e ouviu o
canto do homem prometendo uma eterna vitória. Esse cântico fez com que sua
inveja e ódio aumentassem de tal maneira que não os pôde conter. Disse então a
seus seguidores que em breve faria silenciar aquela voz irritante. Faria tudo
para transformar o louvor humano em blasfêmias ao Criador. As hostes rebeldes
ficaram curiosas para conhecer os planos de seu chefe, mas foram por ele
advertidas de que deveriam aguardar até que tudo ficasse para sempre decidido.
Se o homem ouvisse sua voz, comendo do fruto da árvore da ciência do bem e do
mal, seria vitorioso, possuindo para sempre o domínio do Universo. Caso o homem
resistisse, permanecendo fiel ao Criador, já não haveria qualquer esperança
para eles. O paraíso parecia estar envolvido por uma eterna segurança, mas no
semblante do homem podia ser vista uma expressão de temor. Desde a partida dos
anjos, Adão e Eva permaneciam silenciosos, meditando com reverência sobre a
tremenda responsabilidade de sua missão. Pensavam na seriedade daquela iminente
prova que haveria de selar o seu futuro e o de toda a Criação. Animados,
contudo, ante o pensamento da vitória, uniram mais uma vez as vozes num cântico
que expressava a certeza do triunfo anelado. Essa melodia baniu de suas mentes
todo o medo de derrota e, alegres, correram pelos prados verdejantes,
acompanhados pelos fogosos animais que pareciam comemorar a grande conquista.
Sentiam-se seguros em seu paraíso, totalmente esquecidos do perigo de um
possível assalto. Satã, que observava atentamente o casal, percebeu estar
chegando a sua oportunidade. Aproximou-se de forma invisível do paraíso, e
ficou esperando o melhor momento para armar sua cilada. Inconsciente da
presença do inimigo, o casal continuava em sua desprendida alegria, brincando
despreocupadamente com os animais. No semblante transtornado de Satã
estampou-se um maldoso sorriso, ao presenciar um descuido do casal: em sua
exaltação, haviam deixado de atender a última recomendação dos mensageiros,
afastando-se um do outro. O astuto inimigo, não perdendo tempo, apossou-se de
uma serpente, a mais bela do paraíso, fazendo-a aproximar-se graciosamente de
Eva. Eva, que assentada no gramado brincava com os animais, percebeu a presença
da atraente serpente, cujo corpo refletia as cores do arco-íris. Ficou admirada
ao vê-la colher flores e frutos do jardim, depositando-os a seus pés.
Agradecida, tomou-a nos braços, dedicando-lhe afeto. Tendo conquistado a
afeição da mulher, Satã, em sua astúcia, começou a atraí-la para junto da
árvore da ciência do bem e do mal. Sem se dar conta do perigo, Eva acompanhou a
serpente até a árvore da prova. Ali, tendo nos braços o inimigo velado,
acariciou-o e disse-lhe palavras de carinho. Tendo nos olhos o brilho da
sedução, a serpente pôs-se a falar. Suas palavras eram cheias de sabedoria e
ternura e sua voz como a de um anjo. Eva mal pôde crer no que via. Sua alegria
tornou-se imensa por ter nos braços uma criatura tão fantástica. Passaram a
conversar sobre muitas coisas: o amor; as belezas do jardim; o poder do
Criador. Eva ficou admirada ante o conhecimento tão vasto da serpente, que
discorria com maestria sobre qualquer assunto. Envolvida por essa experiência,
Eva esqueceu-se completamente de seu companheiro. Nem sequer passavam pela sua
mente as advertências dos anjos. Adão, inteiramente esquecido dos conselhos dos
mensageiros celestes, havia se afastado na companhia de alguns animais. Depois
de certo tempo, sobreveio com ímpeto em sua mente a lembrança das advertências
recebidas. Soaram em seus ouvidos com clareza as últimas palavras proferidas
pelos anjos: "Não se afastem um do outro... Não se separem nem por um
instante, pois é perigoso." O seu coração pulsou forte por não ver Eva a
seu lado. Ergueu então a voz num grito ansioso. Sua voz, ao ecoar pelas
abóbadas do paraíso, contudo, não trouxe consigo uma resposta. O silêncio quase
o sufocou. Em sua aflição pôs-se a correr de um lado para outro, procurando-a,
em vão. Nessa ansiosa busca, sentiu a brisa afagar-lhe os cabelos e recordou
seu primeiro sonho. Essa lembrança, no entanto, desfez-se ante o pensamento do
perigo que os ameaçava. Com a mente tomada por um grande senso de culpa, Adão
apressou o passo na aflitiva procura. Onde estaria a sua amada? A envolveria a
tempo em seus braços, livrando-a de cair? Mais uma vez ergueu a voz num grito
ansioso que repercutiu por todo jardim: "Eva, onde você se encontra?"
Aguardou uma resposta, mas ouviu somente um eco vazio que o desesperou.
Lembrou-se da árvore da ciência do bem e do mal; ali era o único lugar em que
sua companheira poderia ser iludida. Esperando obstruir a única oportunidade do
inimigo, avançou em direção ao lugar da prova. Seu coração pulsou forte ao
contemplar ao longe a copa da árvore proibida. Com a serpente em seus braços,
Eva interrogou-a a respeito de muita coisa. Maravilhou-se ao perceber que a
serpente a sobrepujava grandemente em conhecimento. Cheia de curiosidade, perguntou
à serpente: - Onde está a fonte de seu tão grande saber? Responda-me, pois
quero também possuí-la. Sem perder tempo, Satã, apontando para a árvore da
ciência do bem e do mal, respondeu: - Ali está a fonte de todo meu saber. Ele
conta então uma mentirosa história: disse que era uma serpente como as demais,
comendo dos frutos do paraíso. Provando certo dia daquele fruto proibido,
recebeu, como que por encanto, todas as virtudes. Olhando para a árvore da
ciência do bem e do mal, Eva ficou surpresa e confusa. Privaria o Criador em
seu amor algo tão bom às suas criaturas?! Vendo-a surpresa, Satã perguntou: - É
assim que Deus disse: Não comereis de todas as árvores do jardim? Eva,
inquieta, respondeu: - Dos frutos das árvores do jardim comemos, mas do fruto dessa
árvore que você diz ser fonte de sabedoria, disse Deus: "Não comereis
dele, para que não morrais." A serpente em tom de desdém disse: - Isso é
falso. Se fosse assim, eu teria morrido. Certamente o Eterno os proibiu de
comer dessa árvore para impedir que o homem venha a se tomar como Ele,
conhecendo todas as coisas. As palavras sedutoras da serpente causaram confusão
na mente de Eva. Em quem confiaria? Tinha em mente a lembrança da ordem do
Criador e de sua sentença, mas ao mesmo tempo tinha diante de si uma prova
palpável que O contradizia. Atordoada, começou a duvidar do caráter do Eterno.
Num desafio, a serpente colheu frutos da árvore proibida e passou a
saboreá-los. Colocando um fruto nas mãos da mulher, incentivou-a a comer,
dizendo: - Não disse o Eterno que se alguém tocasse nesse fruto morreria? Um
completo silêncio pairava sobre o Universo. Em cada planeta habitado, os filhos
da luz contemplavam impotentes àquela angustiante cena. O futuro deles estava
em jogo. Em Jerusalém havia grande comoção. Poderosos anjos apresentaram-se
diante do Criador, solicitando permissão para esmagarem o covarde inimigo,
oculto naquela serpente. O Eterno, contudo, impediu-lhes tal ação. Se o uso da
força fosse a solução, já o teria aplicado. Deviam respeitar o livre-arbítrio
concedido ao homem, podendo ele manifestar sua escolha sob a tentação do
inimigo. Os filhos da luz sofriam imensamente ao verem a mulher duvidando
dAquele que tão bondosamente lhes dera a vida e a oportunidade de reinarem
naquele paraíso. Como poderia duvidar de quem lhes dedicava tanto amor?! Adão,
que numa forte esperança de assegurar a acalentada vitória apressava-se em sua
corrida, contemplou ao longe sua amada, assentada junto à árvore da prova. O
que fazia Eva naquele lugar tão perigoso?! Um pressentimento horrível lhe
sobreveio, ao lembrar-se mais uma vez das advertências recebidas, mas procurou
bani-lo como pensamento de que alcançaria sua esposa antes que algum mal lhe
ocorresse. Eva vacilava em sua convicção ao contemplar o fruto em suas mãos.
Por alguns momentos o futuro pareceu-lhe sombrio e aterrador, mas venceu esse
sentimento, pensando nas glórias que haveria de conquistar ao comer aquele
fruto. Ainda um tanto indecisa, ergueu vagarosamente as mãos até tocar o fruto
com os lábios. Os súditos do reino da luz, estremecidos, inclinaram-se tomados
por grande espanto. Parecia quase impossível, àquela altura, a mulher voltar
atrás. Enquanto pálidos os fiéis indagavam sobre uma possível esperança,
presenciaram com horror a terrível decisão de Eva: resolvera romper para sempre
com o Criador, tornando-se cativa da morte. O Eterno, que em silente dor
contemplava aquela cena de rebelião, curvou a fronte tendo a face banhada de
lágrimas. Não podia suportar a dor daquela separação. Os fiéis, que em pânico
julgavam-se vencidos, foram conscientizados de que nem tudo estava perdido. Se
Adão resistisse à tentação, permanecendo fiel ao Eterno, ele selaria a grande
vitória. Eva, que fora vítima de um engano, poderia ser conscientizada de seu
erro, sendo favorecida com o perdão divino. Quando Adão em sua angustiosa
corrida alcançou o lugar da provação, já era tarde demais. Assentada junto ao
rio, Eva saboreava despreocupadamente o fruto proibido. Adão estremeceu. Seria
mesmo o fruto da prova? Num gesto de esperança olhou para a árvore da ciência
do bem e do mal, mas em pranto reconheceu a triste condenação. Cheio de
tristeza contemplou sua esposa, mas não encontrou palavras para despertá-la
para tão amarga realidade. Em completo desespero, ergueu a voz numa dolorosa
exclamação: "Eva, Eva, o que você está fazendo!" Ao comer do fruto
proibido, a mulher foi tomada por emoções que a fizeram imaginar haver
alcançado uma esfera superior de vida. Ao ouvir a voz de seu esposo, ainda
tomada pelas ilusórias emoções, ergueu a fronte estampando um sorriso, mas
surpreendeu-se ao vê-lo chorando. Com profunda amargura, Adão procurou saber a
razão que a levara a rebelar-se contra o Eterno. Eva, prontamente, passou a
contar-lhe a fantástica história da sábia serpente. Satã sabia que essa
história de serpente jamais convenceria o homem a comer do fruto da árvore
proibida. Precisava encontrar uma maneira sutil de levá-lo a selar sua sorte
seguindo os passos de sua esposa. Tendo Eva sob seu poder, resolveu fazer dela
o objeto tentador. Aguardaria o momento oportuno para enlaçá-lo. No dia em que
dela comerdes, certamente morrereis. A lembrança desta sentença deixava Adão
muito aflito. A expectativa de ver sua amada perecendo em seus braços, era
demais para suportar. Esta aflição, contudo, foi diminuindo, ao ver que ela
continuava feliz e carinhosa ao seu lado, como se nenhum mal lhe houvesse
acontecido. Aliviado, Adão voltou a sorrir, correspondendo aos afetos de sua
companheira. Rendia-se às mais doces emoções, longe de saber que era o inimigo
quem o envolvia naqueles abraços. Nesse momento de enlevo, Eva começou a
falar-lhe de sua experiência com a ciência do bem e do mal. Falou-lhe dos
tesouros da sabedoria que lhe haviam sido abertos. Em seu novo reino, viveria
muito feliz. Entretanto, essa felicidade seria incompleta sem a participação de
seu esposo. Falou-lhe da impossibilidade de retroceder em seus passos, e
insistiu para que ele a seguisse. Depois de falar-lhe de sua decisão, Eva, com
um doce sorriso, estendeu-lhe as mãos contendo um fruto, pedindo-lhe que o
comesse numa demonstração de seu amor por ela. Com a voz tentadora em seus
ouvidos, Adão assentou-se no gramado em profunda reflexão. Sua face tornou-se
novamente pálida e suas mãos trêmulas. Temia rebelar-se contra o Criador, mas
ao mesmo tempo compreendia que não conseguiria viver separado de sua
companheira, a quem amava com infinito amor. Eva era carne de sua carne, a
extensão de seu ser. Sentia-se angustiado ao ter de tomar uma decisão tão
séria. A palidez do rosto de Adão refletiu-se no semblante de todos os fiéis ao
Eterno. Ouviram a insinuação do inimigo e perceberam com horror a vacilação do
homem. A indecisão de Adão deixava-os desesperados. Obedecesse ele àquela
proposta de Satã, toda felicidade seria eternamente banida. Nas decisões do ser
humano estava o destino de todo o Universo. Atenderia ele ao apelo de Satã?
Depois de intensa luta íntima, Adão olhou para sua companheira; a ela unira-se
em promessas de uma eterna entrega. Não a deixaria só agora. Partilharia com ela
os resultados da rebelião. Tomou então das mãos de Eva um fruto e, num gesto
apressado, levou-o à boca. Procurando abafar a voz de sua consciência, que lhe
falava de uma eterna perdição, Adão lançou-se nos braços de sua esposa,
desfrutando o alto preço de sua rebelião. Satã, com brados de triunfo, deixou o
paraíso, voando rapidamente para junto de suas inumeráveis hostes, que
aguardavam ansiosas o resultado de tão arriscada tentativa. Ao saberem da
desgraça humana, uniram-se numa estrondosa festa. Sentiam-se seguros. Sião
agora lhes pertencia por direito, podendo lá estabelecer um reino eterno,
jamais sendo molestados pelas leis do Eterno. Em todo o Universo os filhos da
luz sofriam e pranteavam a derrota. Nunca houvera tanta tristeza e horror ante
o futuro. As vozes que viviam a entoar louvores ao Criador proferiam agora
lamentações. O Eterno, que vencido por infinita dor prostrara - Se em pranto
ante a queda do homem, não fora, contudo, surpreendido. Antes mesmo de criar o
Universo já havia previsto esse triunfo da rebeldia e, em Sua sabedoria e amor,
idealizara um plano de resgate que O envolveria num imenso sacrifício.
Enxugando as lágrimas de Seu pranto, pôs-Se a agir poderosamente em favor de
Seus fiéis aflitos, impedindo-os de caírem nas mãos dos inimigos. Nessa
misteriosa intervenção que aparentemente depunha contra a justiça, o Eterno
ordenou que Seus mais poderosos anjos circundassem imediatamente o jardim do
Éden, impedindo que Satã tomasse posse do monte Sião. Consoladas ante a
manifestação divina, as potentes criaturas, em pronta obediência, romperam o
espaço infinito, circundando em instantes o paraíso, no seio do qual o ser
humano, já transtornado pelo pecado, vivia o negror de uma noite que seria
longa e cruel. Sendo a autoridade do Eterno fundamentada na justiça, de que
maneira poderia justificar Suas ações diante dos inimigos? Não entregara por
Sua vontade o reino ao homem, e esse por livre escolha não o submetera a Satã? Enquanto
surpresas as criaturas racionais consideravam as ações decisivas de Deus,
ouviram Sua potente voz que, repercutindo por toda a criação, trazia a
revelação do grande mistério - revelação tão maravilhosa que a partir daquele
momento, por toda a eternidade, ocuparia a mente dos fiéis, sendo tema para as
mais doces meditações. O Eterno falou primeiramente sobre a terrível condenação
que pendia sobre o homem e toda a criação. Disse que, ao se desligar da Fonte
da Vida, o homem havia se precipitado em tão profundo abismo que não poderia
ser alcançado pelo Seu braço de justiça e poder. Humilhado e torturado pelas
garras do inimigo, não restava ao homem outra sorte além da morte - fruto
doloroso de sua espontânea rebelião. Considerando a situação humana, as hostes
da luz não viam possibilidades de triunfo. Sabiam que só o homem poderia
retomar o domínio do inimigo, devolvendo-o ao Criador. Mas o ser humano,
eternamente escravizado em sua natureza, seria incapaz de tal vitória. Com voz
melodiosa e cheia de ternura, Deus revelou o plano da redenção, dizendo:
"Na verdade, o homem colherá o fruto de sua rebelião numa terrível morte.
Não posso, com o meu poder, mudar-lhe a sorte. Se assim agisse, seria injusto
diante de meu decreto. Mas farei cair toda a condenação sobre um Substituto que
surgirá na descendência humana. Esse Homem não trará em suas mãos as algemas da
morte, sendo inocente e incontaminado em Sua natureza. Como representante da
raça humana, enfrentará Satã e o vencerá. Após triunfar nessa batalha, provando
que o amor é mais forte que o egoísmo, que a verdade é mais forte que a
mentira, que a humildade é mais poderosa que o orgulho, o fiel Substituto
erguerá as mãos vitoriosas não para saudar a grande conquista, mas para tomar
das mãos da humanidade escravizada a taça de sua condenação. Sorverá assim,
submisso, o cálice da eterna morte. Esse imenso sacrifício abrirá aos seres
humanos uma oportunidade de serem redimidos, voltando aos braços do Criador,
juntamente com o domínio perdido." As hostes, surpresas ante a revelação
do Eterno, indagaram a identidade d'Esse Substituto. O Criador, com um sorriso
amoroso, disse-lhes: "Eu serei esse Homem. O Meu Espírito repousará sobre
uma virgem, e nela será gerado um Filho Santo. Esse menino será divino e
humano. Em sua humanidade, ele será submisso à divindade que n'Ele habitará. Os
remidos verão n'Ele o Pai da Eternidade, o Criador e Redentor, o Rei dos reis.
O Seu nome será Yoshua (nome hebraico que traduzido significa o Eterno
salva)." Assumindo a natureza humana, Deus poderia pagar o alto preço do
resgate, morrendo em lugar dos pecadores. As hostes da luz ficaram emudecidas
ao conhecer o plano do Criador. O pensamento de verem-nO submeter-Se a tão
penoso sacrifício, a fim de redimir o domínio perdido, era demais para
suportarem. Não havia, contudo, outra esperança de vitória, a não ser através
dessa amorosa entrega. Após desfrutar o alto preço do pecado, o jovem casal
sentiu-se mal. Inicialmente sentiram um grande vazio no coração, que logo foi
preenchido pelo remorso e pela tristeza. Perceberam que, inspirados pela
cobiça, haviam selado sua triste sorte e a de toda a criação. Parecia-lhes
ouvir ao longe o gemido de um Universo vencido. O sol, que os enchera de vida e
calor naquele dia, ocultava-se no horizonte, anunciando-lhes uma negra noite. O
arrebol, que até ali anunciara-lhes o feliz encontro com o Criador, parecia envolvê-los
numa sentença de que jamais despertariam para um novo dia. Não ousavam sequer
olhar para cima, temendo ver cair sobre eles o raio do juízo que os reduziria a
pó. Com o olhar voltado para o frio solo, vinha-lhes à lembrança a sentença:
"No dia em que dela comerdes, certamente morrereis." Desesperadas
lágrimas rolavam em seus rostos ao aguardarem o trágico fim. Ao considerar o
motivo de sua rebelião, Adão começou a recriminar sua esposa por ter dado
ouvidos à serpente. Eva, por sua vez, procurando desculpar-se, lançou a culpa
sobre o Criador, dizendo: "Por que o Eterno permitiu que a serpente me
enganasse?!" O amor que reinava no coração humano desaparecia, dando lugar
ao orgulho e ao egoísmo, que se fundiam em ressentimentos e ódio. Sua natureza
já não era pura e santa, mas corrompida e cheia de rebeldia. Tudo estava
mudado. Mesmo a brisa mansa que até ali os havia banhado em carícias
refrescantes, enregelava agora o culposo par. As árvores e os canteiros floridos,
que eram seu deleite, consistiam agora em empecilhos ao caminharem sem rumo
naquela noite. O propósito de Satã em encher o sábado de trevas parecia haver
se cumprido. Naquela noite, não existia sequer o reflexo prateado do luar para
falar-lhes de esperança. As estrelas cintilantes, suspensas no escuro céu,
estavam ofuscadas pela dor. Baixavam sobre o mundo as trevas de uma longa noite
de pecado - sombras sob as quais tantos se arrastariam sem esperança de um
alvorecer. A noite já ia alta e as trevas pareciam envolver o triste casal em
eternas sombras. Nem sequer cogitavam em suas poucas palavras, sufocadas pela
agonia, de um alvorecer. Cabisbaixo, tateavam daqui para ali, na expectativa do
juízo iminente, que os reduziria ao frio pó, esquecido sob aquelas trevas sem
fim. Surgiu repentinamente um brilho no céu, que ia aumentando à medida que se
aproximava da Terra. O casal estremeceu, pois sabia que era o Criador que vinha
dar-lhes o castigo. Vencidos pelo pânico, puseram-se a correr, distanciando-se do
monte Sião, o lugar da vergonhosa queda. Justamente para ali viram o Criador
dirigir-Se. Eles, que sempre corriam ao encontro do amoroso Pai, atraídos por
Sua luz, fugiam agora desesperados em busca de lugares escuros, de densa
floresta. O Eterno, movido por infinito amor, passou a seguir os passos do
casal fugitivo. Enquanto caminhava, chorava ao lembrar os momentos felizes que
havia passado junto a eles naquele paraíso. Como tudo se transformara! Seus
filhos não conseguiam mais ver n'Ele um Pai de amor, mas alguém que, irado,
buscava castigá-los. Movido por forte anseio de abraçar Seus filhos humanos, Deus
fez ecoar a voz numa indagação: "Adão, onde vocês se encontram?" Sua
voz, ao soar em meio às trevas, trazia consigo somente um eco vazio que falava
de ingratidão e rebeldia. Como desejava envolver o casal num ardoroso abraço, e
com palavras de carinho confessar-lhe que Seu amor era o mesmo! Ao ver Seus
filhos fugindo de Sua presença, o Eterno foi tomado de grande dor. Ante Seu
olhar mareado de lágrimas, estendia-se o futuro da raça humana. Quantos,
enganados por Satã, fugiriam de Sua presença no decorrer da longa noite de
pecado, julgando-No um Senhor tirano, que vive buscando falhas e fraquezas nos
pecadores, a fim de castigá-los! O Criador, todavia, não desistiria de procurá-los
pelos vales sombrios do reino da morte, até conquistar um povo arrependido.
Adão e Eva, exaustos pela pressurosa fuga, esconderam-se por entre a folhagem
de um pé de figueira. Reconhecendo sua nudez, procuraram fazer aventais cosendo
aquelas folhas. Vestidos assim, julgaram poder livrar-se do sentimento de
vergonha ante o Criador. O Eterno, aproximando-Se do local onde o casal se
escondia, perguntou: - Adão, onde estão vocês? Não podendo mais se ocultar de
Deus, Adão ergueu-se juntamente com sua companheira e, cabisbaixos,
apresentaram-se ao Criador, prostrando-se trêmulos a Seus pés. Não conseguiram
encará-Lo mais, devido ao senso de culpa. O Criador, carinhosamente, tomou-os
pelas mãos, erguendo-os do chão, e, com expressão de tristeza no semblante,
perguntou-lhes: - Por que vocês fugiram de Mim? Acaso comeram do fruto da
árvore da ciência do bem e do mal? Adão, todo trêmulo, com voz entrecortada por
soluços de temor, respondeu: - A mulher que me deste por companheira, ela deu-me
o fruto e eu comi. Com esta resposta, Adão procurava desculpar-se, lançando a
culpa sobre sua esposa. Voltando-Se para Eva, o Eterno indagou-lhe: - Por que
você fez isso? Eva prontamente respondeu-Lhe: - Aquela serpente me enganou e eu
comi. Ambos não queriam reconhecer a culpa, lançando-a sobre outrem. Em suma,
atribuíam ao Criador a responsabilidade por todo o mal praticado: "Por que
concedera-lhes o livre-arbítrio? Por que criara a mulher? Por que criara a
serpente?" Silente, Deus observava Seus filhos que, tímidos e
desconcertados, permaneciam diante de Si. Com profunda tristeza, Ele previu que
essa seria a experiência de incontáveis seres humanos no decorrer da história.
Quantos haveriam de se perder por não reconhecerem a própria culpa! Quantos
procurariam justificar-se, lançando seus erros sobre os outros e até mesmo
sobre o Criador! Com palavras brandas, o Eterno procurou fazê-los reconhecer
sua culpa. Somente reconhecendo sua necessidade, poderiam ser ajudados. Olhando
para as frágeis vestes tecidas por mãos pecadoras, disse ao casal: - Filhos,
essas vestes são insuficientes, logo secando se desfarão. Vocês precisam de
vestes duradouras, que possam cobrir vossa nudez, livrando-vos da condenação.
Se vocês quiserem, Eu posso dar-lhes essa veste. Ante as palavras bondosas do
Criador, que traziam esperança, o casal prostrou-se arrependido, despindo-se de
suas ilusórias vestes, símbolos de seu fracasso. Almejavam agora as vestes da
salvação, prometidas pelo divino Pai.
A História do
Universo Capitulo V
Depois de
contemplar Seus filhos que, arrependidos, jaziam a Seus pés, o Eterno tomou-os
carinhosamente pelas mãos e os levantou. Alegrava-Se em poder revelar ao homem
caído o plano da redenção. Com ternura, Deus passou a descerrar-lhes
primeiramente os amargos resultados de sua queda, dizendo: "Filhos, vocês
selaram o destino de toda a criação nas garras da morte. A desarmonia já
permeia a natureza, procurando destruir nela todas as virtudes. O abismo no
qual vocês imergiram pela desobediência é por demais profundo para que possam
ser alcançados pelo meu poderoso braço. Assim, desligado da Fonte da Vida, não
resta mais ao ser humano outra sorte além da morte." Depois de proferir
estas palavras que revelavam uma triste sorte, o Eterno convidou o casal a segui-Lo.
Cabisbaixos, Adão e Eva, em pranto, seguiram o Criador em Seus passos de
justiça, que encaminhavam-nos ao lugar da vergonhosa queda, onde supunham
encontrar o doloroso fim. Nessa dolorosa caminhada, soluçaram ao lembrar seu
passado de glória desfeito pela ingratidão. Como doía-lhes na alma a terrível
expectativa de serem reduzidos, juntamente com a criação, a frias cinzas sob a
escuridão daquela noite de pecado! Enquanto caminhavam, contemplavam através
das lágrimas as belezas adormecidas banhadas pela luz de Deus. Viam os
inocentes animais, que não tinham consciência da grande dor Subitamente, o
casal se deteve, vencido por intenso pranto; seus vacilantes passos os haviam
levado para junto de um cordeiro, o animalzinho mais querido. Seus olhinhos de
meiguice haveriam também de se apagar?! Enxugando-lhes as lágrimas, o Eterno
ordenou-lhes tomar nos braços o inocente cordeiro. Envolvendo-o junto ao peito,
acompanharam silentes os passos do Criador, até alcançarem o topo do monte
Sião, lugar da vergonhosa queda. Contemplando ali os restos dos rubros frutos,
com ímpeto lhes veio à mente a lembrança da sentença divina: "No dia em
que dela comerdes, certamente morrereis." O terrível momento chegara. O
homem culpado deveria sorver o amargo cálice da morte, sucumbindo sem
esperança. Consciente de sua perdição, o casal percebeu, com horror, que as
mãos que os trouxeram para a vida empunhavam agora um cutelo pontiagudo de
pedra. Trêmulos, prostraram-se e esperaram pelo cumprimento da justa sentença.
Enquanto emudecidos pelo medo, Adão e Eva aguardavam o golpe que os reduziria a
pó, sentiram o toque macio das mãos divinas que os erguiam para uma nova vida.
A condenação, contudo, haveria de recair sobre um substituto. Colocando nas
mãos de Adão o cutelo, o Criador lhe disse: - O cordeiro morrerá em lugar de
vocês. Adão deveria sacrificá-lo. Assustado ante a ordem de Deus, o casal, em
pranto, pôs-se a clamar: - Senhor, o cordeirinho não, ele é inocente! Com
expressão de justiça, o Eterno acrescentou: - Se ele não morrer, vocês não
poderão ter as vestes das quais falei. Ante a insistência do Criador, Adão,
todo tremulo, num esforço doloroso, cravou no peito do cordeirinho aquela aguda
pedra. O golpe foi fatal, e o animalzinho, vertendo seu precioso sangue,
mergulhou nas trevas de uma noite sem fim. Contemplando o cordeirinho inerte
sobre a relva ensangüentada, o casal ergueu a voz e chorou. Começavam a
compreender a enormidade de sua tragédia. Quão terrível era a morte! Ela, em
seu poder, apagara toda a luz dos olhos do inocente animal. Inclinando-Se
silente sobre o corpo inerte do cordeiro, o Eterno tirou-lhe a pele revestida
de branca lã e com ela fez túnicas para cobrir a nudez do casal. Após vesti-los
perguntou-lhes com carinho: - Vocês entenderam o sentido de tudo isto? Em
profunda reflexão, por entre soluços de reconhecimento e gratidão, o casal
exclamou: - Ele morreu em nosso lugar, para dar-nos suas vestes! Adão e Eva,
embora compreendessem aquela realidade física, estavam longe de entender o
significado daquele acontecimento. A eles o Criador revelaria o mistério do
divino amor. Com expressão de infinita misericórdia, Deus passou a revelar ao
ser humano o sentido daquele doloroso sacrifício, dizendo: O inocente
cordeirinho, que hoje padeceu, simboliza um homem que haverá de nascer. Em seus
olhos haverá a mesma meiguice, o mesmo amor. Revestido por uma vida justa, como
a branca lã que cobria o cordeiro, esse homem crescerá como um renovo sobre a
Terra, não tendo nas mãos as algemas do pecado. Em sua aparência, esse homem não
trará a pompa de um rei, por isso será desprezado por muitos. Será um homem de
dores, pois cairá sobre si o peso de todas as provações. Em sua fidelidade ao
reino da luz, esse homem lutará contra o inimigo usurpador, vencendo-o
finalmente. Após triunfar em suas lutas, tomará sobre si o fardo de vossa
condenação que lhe causará uma terrível morte. Ele será traspassado por causa
da vossa rebelião e moído pelas vossas iniqüidades. Será oprimido e humilhado,
mas não abrirá a sua boca, como o cordeirinho que hoje entregou-se
pacificamente. Sucumbindo na morte, ele vos concederá os méritos de sua
vitória. Envolvidos por suas vestes de justiça, estareis livres da condenação.
A vida eterna alcançareis assim, mediante o sacrifício desse homem justo que
haverá de nascer. Adão e Eva, que num misto de gratidão e dor ouviram a
revelação de tão grande salvação, indagaram reverentes a respeito desse homem
especial que em sua descendência haveria de surgir, a fim de cumprir tão imenso
sacrifício. O Criador, olhando-os ternamente, movido por um amor que supera
mesmo a morte, os envolveu num carinhoso abraço e revelou: - Eu serei esse
Homem! Surpresos ante a declaração do Eterno, Adão e Eva ficaram imóveis,
enquanto contemplavam o Seu meigo semblante. Compreendendo o significado do
tremendo sacrifício, prostraram-se a Seus pés e com lágrimas clamaram: - Nós
somos merecedores da morte Senhor, mas Tu és inocente e não deves sofrer em
nosso lugar! Enxugando-lhes as lágrimas, o Eterno com ternura lhes falou: -
Meus filhos, Eu os amo com um eterno amor. Eu morrerei em lugar de vocês. Ante
esta confirmação, o casal ergueu a voz numa lamentação dolorosa. Diziam: - Nós
matamos o Criador! Nós matamos o Criador! Mas Deus passou a consolar o casal
com palavras de esperança, dizendo: - Após sorver o cálice da eterna morte, Eu
retomarei a vida e subirei ao céu. Intercederei ali pelo homem perdido,
concedendo a todos aqueles que, arrependidos, aceitarem meu sacrifício, as
vestes de minha vitória. Juntos, triunfaremos finalmente sobre o reino do
pecado que se desfará em cinzas sob nossos pés. Criarei então um novo Céu e uma
nova Terra, onde unicamente a justiça e o amor reinarão. Viveremos assim para
sempre, num reino de perfeita harmonia e paz. O Criador, que acompanhado pelo
casal permanecia ainda sobre o monte Sião, concluiu Suas revelações dizendo:
"O jardim do Éden ficará agora vazio. O ser humano, durante a longa noite
de pecado, vagueará em seu exílio. Não andará, contudo, sozinho: o Eterno,
também peregrino, trilhará com o homem toda a estrada espinhosa, até poderem
juntos galgar o monte perdido, triunfando gloriosamente sobre o reino da morte.
A árvore da ciência do bem e do mal monumento da rebeldia será então desfeita,
dando lugar a uma árvore gloriosa que, unindo sua copa à árvore da vida, se
tornará no arco comemorativo da grande vitória. Sobre o santo monte redimido,
repousará então para sempre o torno universal, que pelos fiéis triunfantes será
nomeado: o trono de Deus e do Cordeiro." Adão e sua companheira, após
ouvirem palavras tão confortadoras e cheias de esperança, ergueram a voz num
cântico de gratidão e louvor. Conheciam agora o infinito amor de seu Criador e
estavam dispostos a servi-Lo. Depois de consolar o casal, Deus levou-os para
fora do Éden. Não lhes foi fácil se despedir daquele precioso lar; ali haviam
despertado para a vida nos braços do Eterno; ali desfrutaram momentos de pura
felicidade, em companhia do Criador, dos anjos e dos dóceis animais. Uma
saudade infinita parecia envolver o casal em seus passos de abandono. Foi com
espanto que Satã e seus súditos presenciaram a intervenção do Eterno. Ficaram
abalados ante a surpreendente revelação do plano de resgate. Com raivosa
frustração, compreenderam que, se de fato a promessa divina se concretizasse,
não restaria nenhuma esperança. Depois de refletir sobre tudo o que acontecera,
uma grande ira apossou-se de seu coração. Não estava disposto a reconhecer a
redenção do ser humano. Faria todos os esforços para retê-lo, juntamente com o
reino que lhe fora entregue. Quando o casal, acompanhado pelo Criador, alcançou
o vale ferido pela morte, amanhecia. Ali Satã os enfrentou com fúria, numa
tentativa de se apossar novamente do ser humano. O casal ficou trêmulo em face
do inimigo, mas as mãos protetoras de Deus os acalmaram. Expressando no
semblante a firmeza de uma justiça que é eterna, o Eterno silenciou as ameaças
do inimigo com as seguintes palavras: "O ser humano Me pertence, pois Eu o
comprei com o meu sangue". Ao caminharem silentes junto ao Criador, Adão e
Eva observavam com tristeza os sinais da morte estampados naquela natureza
antes tão cheia de vida. As belas flores, que haviam desabrochado para exalar
aromas eternos, pendiam agora murchas; os passarinhos, que com alegria os
saudavam em cada alvorecer com os seus trinos, voavam agora distantes, fazendo
soar tão tristes cantos! Tudo estava mudado na natureza. A ciência do bem e do
mal não trouxera nenhum bem ao Universo, mas um intenso conflito espiritual e
físico. Ante as conseqüências devastadoras de sua queda, o casal, vencido por
uma indizível tristeza, prostrou-se arrependido e chorou amargamente. Deus, que
também compungido pela dor contemplava o cenário desolador, procurou, com
palavras de esperança, confortá-los. Falou-lhes sobre o novo Céu e a nova Terra
que um dia criaria, onde a paz e o amor voltariam a reinar em cada coração. Ali
viveriam sempre juntos, não trazendo na fronte as marcas da tristeza, mas
coroas de eterna vitória. Ali enxugaria as lágrimas de suas faces e essas
jamais voltariam a umedecer os seus olhos. Amparando Adão e Eva em seus passos,
o Criador conduziu-os através de um vale ferido, até alcançarem o sopé de uma
colina. Galgaram-na em lentos passos, enquanto trocavam palavras de ânimo e
esperança. Seus pés alcançaram finalmente a relva macia que cobria o topo
espaçoso daquela colina. Era sobre aquele lugar que o casal via a cada dia o
sol declinar, banhando o céu e os vales de um vermelho vivo, como o sangue que
jorrara do peito do cordeiro. Voltando-se para o lado oriental, o casal, num
misto de dor e saudade, contemplou ao longe as paisagens que os envolveram
naquele passado tão feliz. Ao divisarem o monte Sião, que majestoso erguia-se
no meio do Éden, choraram ao lembrar da queda. Quão fracos tinham sido! O sol
declinava em sua jornada, anunciando a chegada de mais uma triste noite - a
primeira fora do paraíso. Num calmo gesto, o Eterno, mostrando-lhes o vale
sobranceiro à colina, falou-lhes com carinho: "Aqui será vossa provisória
morada. Daqui podereis contemplar o paraíso que por algum tempo permanecerá na
Terra, até ser recolhido ao seu lugar de origem, no seio da Jerusalém Celeste.
Ali, protegido pela justiça, aguardará o alvorecer da vitória. Quando esse
grande dia chegar, retornaremos juntos a Sião, onde seremos coroados em glória,
num reino de eterna felicidade e paz". Depois de dizer estas palavras, Deus
ordenou ao casal que construísse naquele lugar um altar de pedras, sobre o qual
a cada semana, na noite que antecede o sábado, deveriam imolar um cordeiro,
pela memória de Seu sacrifício. Como sinal de Sua presença, e para a certeza de
que seus pecados seriam perdoados, Ele acenderia um fogo sobre o altar, o qual
duraria toda à noite, até consumir por completo a oferta do sacrifício. Para
que o ser humano pudesse firmar sua fé sobre as verdades reveladas, e não na
manifestação visível da pessoa do Criador, Ele haveria de permanecer invisível
daquele momento em diante. Somente em ocasiões especiais, quando se fizesse
necessário Sua aparição ou a de anjos para novas revelações e advertências,
isto ocorreria. Contemplando os Seus filhos entristecidos naquele momento em
que seriam deixados aparentemente sozinhos. O Eterno disse-lhes com amor:
"Filhos, embora vocês tenham de permanecer neste ambiente hostil, não
precisam temer, pois Eu permanecerei ao lado de vocês. Serei um companheiro
amigo nesta jornada; levarei sobre os meus ombros suas dores, seus anseios,
suas lutas. Quando, tentados pelo inimigo, estiverem a ponto de ceder, poderão
encontrar abrigo em meus braços, que sempre estarão estendidos para salvá-los
e, se algum dia vocês não resistirem, e pela fúria do inimigo forem arrastados
para as profundezas do abismo, não se desesperem julgando não haver esperança,
pois Eu estarei ali para acudi-los com o meu perdão e força. Tenham sempre em
mente o significado das vestes recebidas das minhas mãos, pois elas falam da
redenção que ao homem pertence. Descansem filhos meus, nos meus braços de
amor." Depois de consolar o casal com estas promessas, o Criador, vendo
que estavam sonolentos pelo cansaço, os fez reclinar no Seu colo e, como de
costume, acariciou-os docemente até adormecerem. Ao vê-los esquecidos em seu
sono, Deus chorou ao prever o sofrimento que experimentariam ao acordar. Com o
coração partido pela dor causada pôr aquela separação física, o Criador deixou
o casal adormecido sobre a relva, depois de beijar-lhes as faces já marcadas
pelo sofrimento. Sua luz dissipou-se ao tornar-Se invisível, dando lugar às
trevas daquela primeira noite fora do paraíso. No subconsciente do casal começaram
a desfilar sonhos coloridos de um passado feliz. Encontravam-se mais uma vez em
meio às belezas do Éden, saciados pôr uma alegria eterna. Agradecidos pela
vida, corriam pelos campos floridos, brincando com os animais.Com felicidade
uniam as vozes aos anjos nos harmoniosos cânticos em louvor ao Criador. Tantas
cenas lindas desfilavam em seu subconsciente, mas esses sonhos tornaram-se
pesadelos, fazendo-os reviver sua tragédia. Agonizantes despertaram em meio à
escuridão daquela primeira noite no exílio. Não conseguindo conciliar o sono, o
casal permaneceu em pranto até ser consolado pelo alvorecer que revelou-lhes ao
longe o saudoso paraíso. Deus, ainda que invisível, permanecia ao lado de Adão
e Eva ali na colina. O sofrimento deles era o Seu sofrimento, como também a
esperança de um dia retornarem vitoriosos a Sião. Ante o olhar contemplativo do
Criador, revelava-se o futuro sombrio da humanidade. Com pesar, via incontáveis
criaturas perecendo sem salvação, por rejeitarem o Seu amor. Lágrimas molharam a
Sua face, ao antever o inimigo empregando toda astúcia a fim de reter os seres
humanos sob seu domínio. Longa seria a noite do pecado, e renhida a batalha
pela reconquista do reino perdido. O triunfo da luz requereria da parte de Deus
um sacrifício imenso. Na pessoa do Messias, há seu tempo, ele nasceria entre os
homens, com a missão de pagar o preço do resgate. Por meio dEle muitos seriam
libertos das garras do inimigo: todos aqueles que O aceitassem como Salvador e
Rei. Contra esses escolhidos, o inimigo arregimentaria todas as forças
procurando fazê-los cair. Em sua visão do futuro, o Criador contemplou com
alegria o triunfo final dos redimidos. Haviam sido extremamente provados, mas
em tudo foram mais do que vencedores por meio dAquele que os redimiu das trevas
para o reino da luz. Depois de antever os sofrimentos que adviriam da grande
luta, o Eterno estendeu o olhar pelas planícies cativas, contemplando ali as
hostes rebeldes dispostas para a luta. O objetivo desses exércitos, era
apossar-se novamente do ser humano, no qual estava selado o direito de domínio
sobre o Universo. Contrária à natureza do Criador é a guerra, mas para defesa
de Seus filhos, estava disposto a empregar o Seu poder. Sua força, contudo,
somente seria empregada com justiça. Se o ser humano recusasse essa proteção
oferecida mediante o sacrifício do Messias, Deus nada poderia fazer para
impedir que o mesmo perecesse nas garras do inimigo. Adão e Eva, contudo,
haviam se arrependido de seu grande pecado, recebendo pela misericórdia de Deus
vestes de salvação, simbolizadas pelas peles do cordeiro sacrificado.
Justificado pela entrega do casal, o Eterno convocou Seus poderosos exércitos
para a peleja. Em pronta obediência as hostes da luz irromperam pelo espaço
sideral em direção a Terra, circundando qual forte muralha a colina, portadora
daquele tesouro redimido pelo sangue do divino Rei. Ao ser humano fora
conferido no Éden o dever de cuidar da natureza : preparavam canteiros para as
flores; colhiam frutos para mantimento; dirigiam os animais em seu inocente
viver, adestrando-os para que lhes fossem úteis. Essas ocupações tinham sido
para eles fontes de desenvolvimento e prazer. Agora, apesar das adversidades,
deveriam continuar realizando esse dever. O trabalho em si, realizado segundo as
ordens do Criador, já anularia muitos ataques do inimigo. As primeiras
ocupações do casal naquela manhã, trouxeram-lhes revelações do grande amor de
Deus, até então desconhecidas. Ao reunirem as pedras para construção do altar,
experimentaram a dor de feridas que jorram sangue, como também a fadiga que faz
minar suor. Sentindo e contemplando tudo na própria carne, amaram mais o
Salvador, para quem o altar construído prefigurava feridas maiores, que
verteriam todo o Seu sangue, como também fadigas que minariam toda a seiva de
Sua vida. O olhar de saudade e de esperança do casal de agora em diante, jamais
pousaria no Éden distante, sem discernir primeiro o altar dos sacrifícios. Esse
altar, com suas manchas de suor e sangue, permaneceria como uma lembrança da dor
e do sofrimento que, depois de umedecer os lábios dos seres humanos,
transbordaria na taça do Criador. Após contemplar pôr longo tempo o paraíso da
eterna vida que estendia-se muito além daquele altar escuro de morte, o casal
experimentou o doce alívio do descanso. Desejosos de conhecer as paisagens de
seu novo lar, Adão e Eva, animados pela esperança, saíram a passear. Seus
passos conduziram-nos por caminhos de sorrisos e de lágrimas; de encantos e
desilusões; de flores que desabrochavam delicadas, banhadas em perfume, e de
flores despetaladas, tombadas murchas e sem cheiro; de animais ainda dóceis e
submissos e de animais inimigos, ferozes e ameaçadores. O casal discernia em
seu passeio as divisas de dois mundos: o da luz e o das trevas; do amor e do egoísmo;
da esperança e do desespero; da harmonia e da desarmonia; da vida e da morte.
Essa visão encheu-lhes de tristeza e choraram longamente. Essa tristeza
aumentaria ainda mais no futuro, quando descobrissem o aprofundamento dessas
divisas no seio de sua descendência. Seis arrebóis já haviam colorido os céus
anunciando ao casal as noites escuras e frias que com seu manto de trevas
desfazia todas as imagens vivas, menos a esperança de revê-las coloridas no
alvorecer de luz. Aproximava-se agora a hora do sacrifício, quando o rude
altar, abrasado em sua justiça clamaria pôr sangue. Se não lhe oferecessem a
oferta, explodiria com certeza, envolvendo todo o mundo com suas chamas; Já não
haveria então alvorecer, nem esperança de Éden a florir. Quão precioso é o
sangue! Sangue é vida; vida é luz! Para um ser aquela noite tornar-se-ia
eterna, sem alvorecer! Esse ser deveria assumir a culpa de todo o mundo, dando
o seu sangue ao rude altar. Quem se ofereceria? Quem verteria a seiva da vida,
até ver a última estrela apagar-se em seu céu?! Adão e Eva depois de refletirem
por longo tempo, contemplando o berço da morte construído pôr suas mãos,
entreolharam-se inquietos com essa questão decisiva: Quem se oferecerá? Essa
indagação nascida de sua culpa, fez vibrar no profundo de suas lembranças a voz
do bendito Criador em Sua revelação de infinita bondade: - Eu os amo com um
eterno amor; Eu morrerei em vosso lugar". Agradecido, o casal prostrou-se
reverentemente ante o sedento altar, vendo-o pela fé, saciado pelo dom do eterno
amor. Naquela tarde de sexta-feira, Deus submetia o ser humano a uma tremenda
prova de fé. Eles tinham diante de si o altar de pedras, construído conforme a
ordem divina, mas não havia nenhuma ovelha para o sacrifício. Em seu anseio,
lembravam-se do Éden, onde havia muitos rebanhos. Ao verem o sol tombar no
horizonte, Adão e Eva passaram a clamar a Deus por socorro, pois sabiam que
somente um milagre poderia providenciar-lhes, naquele derradeiro momento, um
cordeiro para o sacrifício. Aos olhos dos habitantes do Universo, o grande
milagre pelo qual o ser humano clamava, já se processava à quase uma semana:
Guiado pelo Criador, um imaculado cordeiro deixara o Éden e seguira os rastros
do casal em sua caminhada para o exílio. Em sua longa jornada, esse animalzinho
teve de enfrentar muitos desafios e perigos, mas protegido e guiado pelo Eterno
prosseguia em sua missão. Quando as sombras do anoitecer começaram a envolver a
colina, o casal que vivia tão dura prova de fé, discerniu um pontinho branco
que saltitava no gramado vindo em direção deles. À medida em que se aproximava,
aquele vulto parecia falar de esperança, de vida e calor. Ao verem que o grande
milagre acontecera, correram ao encontro do cordeiro, envolvendo-o nos braços.
Ele estava fatigado, mas não descansaria: daria descanso. Estava sedento, mas
não beberia: daria de beber ao altar que clamava por sangue. Aquele cordeiro
tinha vontade de viver nos braços do homem, mas morreria, para que esse pudesse
viver nos braços de Deus. Era um perfeito simbolismo do Redentor que deixaria
Sua glória, vindo em busca do pecador. As trevas de mais uma noite
prefigurativa baixaram lentamente envolvendo toda a natureza em sua prisão. Sua
força, porém, seria quebrada diante do ser humano, pelo brilho de um fogo especial,
aceso pelas mãos do divino perdão sobre o corpo sem vida do inocente cordeiro.
Tudo estava preparado para o doloroso golpe: ato que apagaria daqueles olhinhos
meigos a última estrela de vida, mergulhando-os na fria escuridão de uma eterna
noite: escuridão que geraria luz; frio que geraria calor; morte que geraria
vida - dons imerecidos; frutos do divino amor oferecidos às mãos pecadores,
prestes a ferir. Em meio a silente noite o altar clama; o homem triste exclama,
enquanto o cordeiro, mudo, não reclama ao ser estendido para a morte. As mãos
que construíram o altar erguem-se agora, não para acariciar como outrora, mas
para ferir, sangrando o preço do perdão. Só um gesto, nada mais, e a estrela se
apagará para sempre dos olhos inocentes, fazendo brilhar na face culpada a luz
da salvação. Adão, trêmulo hesita em compaixão. No cordeirinho manso e
submisso, pronto a morrer em seu lugar, vê o Salvador prometido. Com o coração
arrependido, num esforço doloroso, crava o cutelo de pedra no peito do
animalzinho que perece em suas mãos sem sequer dar um gemido. O poder da noite
imediatamente é quebrado pelo brilho do fogo da aceitação. Sua luz revela ao
ser humano sua trágica condição: Vendo as mãos manchadas pelo sangue inocente,
o casal sente-se culpado por aquela morte. Em pranto ajoelham-se ante o altar
que já não lhes reclama sangue, mas oferece luz, aceitando o imerecido perdão.
Erguendo-se, o casal contempla demoradamente o corpo ferido do pobre
cordeirinho, sem poder agradecer-lhe pela riqueza concedida em troca de seu tão
rude golpe. Banhados pela suave luz do sacrifício, Adão e sua companheira
permanecem silentes a meditar, até serem vencidos por um profundo sono.
Recostando-se ao solo coberto de relva macia, adormecem docemente sob os
cálidos raios do perdão, certos de que seu brilho e calor perdurariam até serem
as trevas daquele sábado desvanecidas completamente pelo fulgurante sol. A luz
do cordeiro, desde que fora acesa sobre o altar naquela noite, permanecia em
constante guerra com as trevas. Por várias vezes crescia em brilho, afugentando
para distante a fria escuridão, banhando a natureza com os seus raios de vida.
Por vezes, as trevas trazendo o seu vento frio, quase bania por completo a
chama. Essa, todavia, num grande esforço alimentava-se do sangue do cordeiro,
lançando ao alto sua ardente chama, inundando de luz e calor tudo aquilo que
havia ao redor. O conflito entre a luz nascida do sacrifício e as trevas
naquela noite, descerravam aos fiéis do Universo muitas lições importantes -
verdades que ocupariam suas mentes por toda a eternidade. Naquela chama, ora
ardente em seu brilho, ora fustigada pelos ventos da noite, os fiéis viam uma
representação do conflito milenar entre o bem e o mal; conflito que sem trégua
se estenderia até o alvorecer eterno. O Eterno, no penhor de Seu futuro
sacrifício, acendera em meio das trevas, a luz da verdade, e essa seria mantida
acesa no coração do ser humano, em virtude de Seu sangue que seria derramado
para remissão da culpa. Contra essa luz, o inimigo arremessaria todos os ventos
frios da maldade, banindo do coração de muitos o seu doce brilho. Quantos
jazeriam perdidos por recusarem a luz do perdão divino, ficando envoltos pelas
trevas da escura noite! Depois de longas horas de combate, surge no céu os
sinais do amanhecer. A escuridão que com ira havia lançado seus ventos sobre a
imorredoura chama procurando bani-la, torna-se confusa ante os sinais do
amanhecer. O céu tingido de um vermelho vivo, faz lembrar o sangue que jorrara
do peito do cordeiro para que a chama do perdão pudesse iluminar a noite
humana. Em meio ao colorido de sangue, surge no horizonte o fulgurante sol,
trazendo em seus aquecidos raios o sabor da vitória, envolvendo tudo com sua
vida. O alvorecer em seu saudoso afeto, acaricia o distante paraíso, levando de
seu amado seio em sua brisa matinal o aroma da saudade, numa mensagem de
consolo e esperança às criaturas sofredoras do vale da morte. Banhados pelos
cálidos raios e pela brisa da esperança, o casal desperta em mais um sábado,
cujo simbolismo aponta para o descanso no reino de Deus, ao culminar o grande
conflito entre a luz e as trevas. Para além daquele altar coberto de cinzas,
Adão e Eva contemplam demoradamente o saudoso paraíso. Ainda que distantes em
seu exílio, alegram-se com a certeza de que o sacrifício do Messias fará raiar
para eles o sábado dos sábados: aquele de lágrimas para sempre banidas; de sol
sempre a brilhar num límpido céu; de cordeiros sempre vivos a brincar pelo
gramado; dia sem anoitecer, quando não haverá mais altar coberto de sangue e
cinzas. Suspiram por esse dia de glória, quando Deus Se fará eternamente
visível, levando nas mãos as marcas de Seu infinito amor pelos Seus filhos.
Antes da queda, o ser humano, assim como a todas as hostes celestiais, aprendia
aos pés do Criador que com paciência ensinava-lhes os tesouros da sabedoria
contidos no vasto compêndio da natureza. Tudo no Universo, desde o ínfimo átomo
ao maior dos mundos, testificava em sua perfeita existência do caráter do
divino Rei. Muitos ensinamentos, porém, permaneceram ocultos nas páginas desse
grande livro no período que antecedeu à queda: Eram como as estrelas que,
ocultas durante o dia, revelam seu brilho ao baixarem as sombras da noite.
Tendo a natureza cativa, o inimigo, no intento de bloquear a revelação da
Eterna Sabedoria, introduziu nela borrões de egoísmo, destruição, infelicidade
e morte. Não sabia que esses borrões fariam evidenciar na face da criação a
profundidade da justiça e amor de Deus, levando os fiéis a amá-Lo e
reverenciá-Lo ainda mais. Para o casal, assim como para todos os filhos da luz,
a natureza ferida rompeu o seu véu, revelando novos aspectos da bondade do
Criador ocultos até então. Adão e Eva que estavam acostumados às flores eternas
no paraíso, aquelas que não as viram desabrochar, viam-nas agora surgirem em
tenros botões, em meio às ameaças de espinhos prontos a ferirem. Essas tenras
flores, sem importarem-se com os espinhos, exalavam perfumes suaves de louvor e
gratidão, jamais se cansando de agradar o ambiente. Quando fustigada pelos
ventos frios da noite, essas flores não se ressentiam, mas ofereciam seu aroma,
que transformava a fúria dos ventos em brisas perfumadas de um alvorecer.
Movidos por profunda gratidão, o casal acompanhava atentamente o ministério de
amor daquelas flores que, jamais se cansavam de abençoar, oferecendo sua beleza
e perfume como alívio para aqueles que eram feridos pelos rudes espinhos.
Aquelas flores singelas e puras, depois de mostrar em sua curta vida que o
perdão e o amor são mais fortes que todos os ventos e espinhos, num último
esforço de comunicar alegria, exalavam seu perfume, tombando murchas e sem vida
sobre o solo frio. Ali, esquecidas, transformavam-se em insignificante pó que
era espalhado pelo vento. A morte das flores, ainda que parecesse fracasso,
revelou ao casal o mistério do renascimento da vida: Morrendo, as flores davam
vida aos frutos que, por sua vez, depois de servirem de alimento, doavam suas
sementes cheias de vida. Na morte dessas sementes, renascia o milagre da vida,
multiplicando as árvores com suas flores prontas a repetir o ensinamento do
amor e do sacrifício. A natureza, portanto, embora maculada pelo pecado,
revelava o mistério oculto do plano da redenção. Cada flor a desabrochar em
meio aos espinhos, em sua curta vida de amor, era um símbolo do Salvador que
nasceria entre os espinhos da maldade, para com o seu perfume consolar o
coração dos aflitos. Semelhante à flor, o Messias depois de provar que o amor e
o perdão são mais fortes que todos os ventos do ódio; que a verdade e a justiça
do reino de Deus são maiores que todos os enganos e injustiças do reino do
inimigo, verteria a seiva de sua vida, morrendo para redimir os culpados.
A História do
Universo Capitulo VI
Consolados pelas
revelações da natureza, Adão e sua companheira, alunos na escola do sofrimento,
aprendiam a cada dia a amar mais o Salvador. Cresciam em sabedoria, humildade e
santidade. Todas as virtudes destruídas pelo pecado, renasciam no coração. Com
ânimo o casal dedicava-se ao labor edificante: plantavam jardins que pelo poder
de Deus enchiam-se de perfumadas flores e deliciosos frutos. Seu lar no exílio
tornava-se num refúgio para os animais perseguidos dos vales. A colina, sob a
proteção dos anjos da luz, tornou-se numa miniatura do Éden distante. Entre os
animais reunidos e domados com amor, haviam muitas ovelhas. Adão e Eva não
conseguiam pousar os olhos sobre esses dóceis animais destinados ao sacrifício,
sem provar no profundo da alma um misto de dor e gratidão. Na noite que
antecedia cada sábado, Adão tinha, por ordem do Criador, de repetir o doloroso
ato. Quanta amargura e arrependimento sobrevinham ao casal ao baixarem as
trevas da noite do sacrifício! Quanto consolo lhes trazia a chama do perdão que
jamais deixara de brilhar sobre o altar, naquelas noites prefigurativa! O
decisivo valor do sacrifício, para que a vida pudesse florescer sob a proteção
divina, levou o casal a valorizar imensamente o seu pequeno rebanho. Cada
sexta-feira, contudo, passou a trazer consigo, além da dor, uma inquietação: -
Quem doará seu sangue ao altar quando a última ovelha perecer? Aos olhos do
casal maravilhado, aconteceu enfim o milagre do amor, renovando-lhes a
esperança de viverem outras semanas sob o brilho da chama do perdão: uma
ovelha, a mais gorda delas, passou a sangrar como em sacrifício; De sua dor,
nasceram-lhes quatro cordeirinhos. Cheios de alegria e gratidão, Adão e Eva
prostraram-se ante o Salvador invisível, tendo nas mãos aquelas novas
criaturinhas que traziam em seus olhos a mesma meiguice e disposição para o
sacrifício. Seguros de que novos milagres multiplicariam seus dias, o casal
uniu sua voz como outrora, num cântico de gratidão e adoração ao Criador que,
como os cordeirinhos nasceria também da dor para cumprir em sua vida o maior de
todos os sacrifícios, para salvação da humanidade. O Eterno, embora invisível
aos olhos de Seus filhos humanos, permanecia bem próximo, acompanhado por um
exército de anjos, em incansável ministério de cuidado e proteção. O casal
estava inconsciente de que a doce calma e paz reinantes naquela colina, bem
como toda a sua prosperidade, eram frutos de tão intensa luta. Se os seus olhos
fossem abertos para as cenas que ocorriam invisíveis, ficariam tomados de
espanto; Quão terrível era o inimigo e suas hostes em suas constantes
investidas com o propósito de arruinar o ser humano, arrebatando-o das mãos do
Criador. Vendo que o emprego da força não lhe redundaria em vitória, o inimigo
em sua astúcia idealizou uma armadilha com a qual poderia enlaçar o casal.
Reunindo os seus exércitos, revelou-lhes seus planos dizendo: - Ao ser humano
foi ordenado sacrificar cordeiros, como símbolos do Salvador vindouro. Os
tentaremos a olhar para esses símbolos como portadores de perdão e vida,
fazendo-os aos poucos esquecer a realidade do sacrifício prometido por Deus.
Será um processo lento, mas de segura vitória". O Criador conhecendo o
perigo dessa armadilha, entristeceu-se, pois ao olhar para o futuro, pode ver
tantos filhos Seus sendo desviados do caminho da salvação. Quantos se apegariam
aos símbolos julgando encontrar neles virtude! Deus em seu amor e cuidado, não
os deixaria inconscientes do perigo que os ameaçava. Sabia o quanto Adão e sua
companheira amavam aqueles cordeiros que, ao morrerem sobre o altar,
ofereciam-lhes luz e calor. Facilmente poderiam ser induzidos a vê-los como
fontes de vida e luz, passando a reverenciá-los. Muitas semanas já haviam
passado, trazendo consigo as noites de dor e sacrifício, seguidas pelos dias de
esperança e saudade dAquele Pai carinhoso, o qual depois de fazer-lhes
promessas e enxugar suas lágrimas, tornara-Se invisível diante de seus olhos.
Cada dia que passava, trazia para o casal novo fardo de saudade, fazendo-os
indagar a cada entardecer: - Quando beijaremos novamente Sua face? Quando
seremos envolvidos por Seus braços, caminhando sob a luz de Seu amor?! Quanta
saudade sentiam daquelas noites edênicas, quando adormeciam no colo macio de
seu divino Pai! Mais uma semana de trabalho e lições aprendidas estava
findando. O sol em seu declinar anunciava outra noite de arrependimento e de
sangue inocente a banhar o altar. O silente casal estava longe de imaginar que
naquela noite, o doloroso golpe que sempre era seguido pelo fogo,
revelaria-lhes a face bendita do Pai. Com as mãos trêmulas, Adão ergue o cordeiro
que, mudo, não faz nenhuma resistência ao ser deposto sobre o altar. Lágrimas
rolam em seu rosto ao pensar que mais um inocente animal mergulhará nas odiadas
trevas da morte, para com seu sangue gerar a luz. É doloroso sacrificar, mas
não há outro caminho de salvação. Unicamente através do sangue derramado do
cordeiro, poderão viver para contemplar no futuro a face do Pai. Num penoso
esforço Adão faz cair àquela pedra pontuda sobre o cordeirinho que, num gemido
de dor derrama o seu sangue. Uma Luz gloriosa logo bane as trevas inundando
toda a colina com seus raios de vida. Através das lágrimas o casal então
contempla em meio ao fogo do altar, o Criador. Num gesto de amor, Deus abre os
Seus braços como outrora, e com um sorriso caminha para o tão almejado abraço.
Sem encontrar palavras que expressem sua imensa saudade, o casal lança-se ao
Seu peito e chora amargamente. O divino Pai, comovido, também chora, mas
procura consolar seus filhos, com seu doce sorriso. Com emoção o casal
contempla a face do Pai, envolvendo-a com beijos e carinhos. O amor deles por
Ele fora intensificado pelo sofrimento. Gratos e felizes, caminham ao lado do
Criador, mostrando-lhe os jardins carregados de flores e frutos. Contam-lhe das
lições aprendidas junto à natureza; mostram-Lhe o rebanho domado pelo afeto.
Iluminados pela suave luz do Eterno Pai, o casal assenta-se aos Seus pés como
outrora, para ouvir Seus ensinamentos. O Criador, olhando-os com ternura, passa
a adverti-los do perigo. Orienta-os a respeito dos sacrifícios de cordeiros,
que eram importantes no sentido de manterem sempre em mente a certeza de um
Salvador vindouro que, como os cordeiros, seria sacrificado para redenção dos
pecadores. Os cordeiros, contudo, não possuíam em si poder para perdoar as
culpas, pois consistiam apenas símbolos do Messias Rei. Depois de serem
conscientizados do perigo de apegarem-se aos símbolos buscando encontrar neles
a salvação, o casal recebeu a incumbência de transmitir essas orientações aos
seus descendentes. Depois de advertir o ser humano, o Criador pousando o olhar
sobre as ovelhas que jaziam adormecidas junto aos seus filhotinhos, exclamou: -
Como são belos os cordeirinhos! O casal, num misto de felicidade e dor
acrescentou:- Eles quando acordados saltam de prazer, esquecidos de que ao
nascerem e ao morrerem causam tanta dor! Depois de contemplar os cordeirinhos,
Deus fitou o casal com ternura, revelando-lhes algo que os surpreendeu e
alegrou: - Quando desses cordeiros trinta e seis houverem subido ao altar, os
vossos braços envolverão o primeiro filho que, como eles surgirá também da dor.
Esse filho em sua infância lhes trará alegria saltando como os cordeirinhos em
vosso lar. Devereis instruí-lo com dedicação nas leis da harmonia,
mostrando-lhes o caminho da redenção. Como vocês, ele será livre para escolher
o rumo a seguir. Aceitando o ensinamento, sua vida será vitoriosa;
rejeitando-o, caminhará para a derrota. Adão e Eva ouviram com alegria a
promessa divina, mas ao mesmo tempo experimentaram no profundo do ser um temor
ao conscientizar-se da responsabilidade que teriam. Sabiam que Satã faria todos
os esforços para levar a criança prometida à perdição. Era noite alta quando o
Criador, depois de acariciar seus filhos, os deixou adormecidos sobre o gramado
macio. Depois da promessa, cada cordeirinho levado ao altar fazia pulsar mais
forte no ventre materno a esperança da alegria que em breve alcançariam. Trinta
e seis finalmente baixaram às trevas cumprindo o tempo determinado pelo Criador
em que a primeira criança receberia a luz. Com as mãos ainda manchadas pelo
sangue do sacrifício, Adão amparou sua esposa que, aos pés do altar prostrou-se
vencida pela dor que lhe trouxe o primeiro filho. A pequena criança não trazia
na face à alegria da liberdade, mas o choro de sua prisão; Esse pranto duraria
a noite inteira, não fosse o brilho daquela chama aquecida de esperança que,
logo atraiu a atenção de seus olhinhos atentos. Envolvendo-o com alegria, Eva
consolada de seu sofrimento, disse: "Alcancei do Senhor a promessa".
Deu-lhe então o nome de Caim. Depois de envolver o filhinho com as peles macias
de um cordeiro, o casal permaneceu acordado a meditar. Muitos eram os
pensamentos que ocupavam suas mentes: pensamentos de alegria, de gratidão, de
esperança e de anseio pelo senso da responsabilidade que agora pesava sobre
seus ombros. Acariciando com ternura a pequena criança, o casal amadureceu em
sua experiência, compreendendo melhor o misterioso amor de Deus que, para
salvar Seus filhos, dispôs-Se a morrer em lugar deles. Adão e Eva não estavam
sozinhos em suas reflexões: todos os seres inteligentes do Universo
consideravam com interesse sobre o futuro daquele indefeso bebê que no íntimo
trazia um reino de dimensões infinitas, a ser disputado pelos dois poderes em
luta. Quem seria o Senhor de sua vida?! Trilhariam os seus pés o caminho
ascendente que leva à vida, ou a estrada descendente que termina no abismo de
uma eterna morte?! Vendo a criança esboçar o seu primeiro sorriso, o casal
subitamente lembrou-se da promessa do Criador que era confirmada em cada
sacrifício : Ele nasceria da mulher como criança, com a missão de redimir a
humanidade. Não seria Caim já o cumprimento da promessa? O infante com seus
olhinhos brilhantes de alegria se parecia tanto com os cordeirinhos que nasciam
e cresciam com a missão de serem sacrificados! Considerando assim, o casal
apertando o filhinho junto ao peito começou a chorar sem consolo. Quão
terrível, seria oferecer seu filhinho inocente ao rude altar! Para o casal
compungido pela dor, surgiu em fim o brilhante sol fazendo reviver com seus
cálidos raios as promessas que apontavam para um Salvador que, ainda no futuro,
nasceria também da dor para cumprir o eterno plano de redenção. Abençoada pelo
Criador e envolvida pelo amor e cuidado dos pais, a criança se desenvolvia em
sua natureza física e mental, tornando-se a cada dia alvo maior de uma
incansável batalha entre as hostes espirituais. Adão e Eva, ansiosos por
fazê-lo compreender as verdades da salvação, tomavam-no nos braços a cada
alvorecer e, à beira do altar lhe apontavam o Éden distante, contando aquelas
histórias de emoção as quais o pequeno Caim ainda não conseguia compreender.
Qual foi a alegria daqueles pais, ao vê-lo numa manhã de sol, apontar com a
mãozinha para o lar da saudade, pronunciando o nome sagrado do Criador.
Emocionados tomaram-no nos braços, pedindo-o para repetir esse sublime nome
que, qual chave de felicidade, sempre descerrava-lhes um paraíso de eterno
amor. Todas as hostes da luz inclinaram-se com alegria ao ouvir a pequena criança
pronunciar o nome do divino Rei. As semanas iam se passando trazendo consigo
novas vítimas para o altar, e o pequeno Caim, alvo da atenção e cuidado de Deus,
das hostes da luz e daqueles amantes pais incansáveis na missão de instruí-lo,
agrupando suas poucas palavras, sempre curiosos com tudo passou a interrogar. O
dia declinava quando o menino, que jazia ao colo de sua mãe, perguntou-lhe: -
Mamãe, por que o sol sempre vai-se embora, deixando a gente no frio da
escuridão?" Eva, surpresa contemplou seu filho, sem encontrar palavras
para responder-lhe à indagação que trouxe-lhe à lembrança o passado de
felicidade destruído por sua culpa. Após um momento de silêncio, beijando a
face do pequeno Caim, disse-lhe: - Filhinho, um dia o sol virá para ficar,
trazendo em seus raios um mundo só de harmonia; já não haverá animaizinhos a
brigar, nem cordeirinhos a morrerem sobre o altar" O pequeno Caim
desejando ver raiar logo esse dia, disse para sua mãe: - Mamãe, amanhã o sol
nascerá no paraíso; Pede para ele ficar! Assim poderei brincar, brincar, e
nunca mais dormir". Ansioso em ver raiar o dia que não teria fim, o
pequenino Caim somente adormeceu após fazer sua mãe prometer que pediria ao sol
para permanecer. Um novo dia de sol radiante a caminhar pelo céu surgiu para
Caim, trazendo em seus raios alegria e calor. Enquanto brincava no jardim, seus
olhinhos curiosos voltavam-se muitas vezes para o sol que parecia acariciá-lo
com um sorriso de esperança. Vendo-o, porém, caminhar em direção do ocidente, o
pequeno correu para sua mãe, perguntando-lhe: - Mamãe, ele prometeu
ficar?" Eva, tomando-o nos braços, sorriu-lhe procurando fazê-lo
compreender com palavras simples, enquanto apontava-lhe o paraíso distante, a
história da redenção. O sol viria um dia para ficar. Caim, insatisfeito com as
palavras da mãe, demonstrou não ter paciência para aguardar esse dia que jazia
em distante futuro. Repetia em pranto: - "Eu quero o sol hoje , amanhã
não!" Eva, pacientemente, procurou acalmar seu filho, falando sobre a luz
de Deus, que pode tornar a noite em dia. Ele o amava e poderia encher seu
coraçãozinho de brilho, de alegria e paciência. Poderia assim, aguardar feliz o
dia de seus sonhos. Balançando a cabecinha em rejeição ao consolo da mãe, Caim
proferiu entre soluços: -"Eu quero o sol porque eu posso vê-lo, ao Eterno
não". Como uma seta dolorosa às palavras de rebeldia de Caim penetraram no
coração de Eva, fazendo-a chorar amargamente. Os fiéis em todo o Universo
uniram-se nesse pranto. Uma tristeza infinita pairava sobre o coração do
Criador rejeitado. Esboçavam-se nos gestos de Caim os primeiros passos pelo
caminho descendente da rebeldia. Quantos o seguiriam rumo à morte! Inconsciente
da tristeza que abatera-se sobre o reino da luz, Adão, ao ver o sol declinar no
horizonte, deixou seu trabalho no campo rumando-se para casa. Tinha um cântico
no coração ao caminhar para mais um encontro com os seus. Ao aproximar-se do
altar, viu junto dele sua companheira prostrada em pranto. O pequeno Caim jazia
também ali a chorar. Tomando-o nos braços, Adão perguntou-lhe com anseio:
-"O que aconteceu meu filho?" Caim tristemente respondeu:
-"Mamãe deixou o sol ir embora" Amparando o filho com seu braço
esquerdo, Adão pousou sua mão direita sobre o ombro de Eva, mas não encontrou
palavras para consolá-la. A frase dita por seu filhinho, pareceu rasgar-lhe o
coração, fazendo-o reviver a queda. Depois de refletir, Adão sentindo-se
culpado respondeu para Caim: -"Foi o papai quem deixou o sol ir embora meu
filho!". Com soluços de grande tristeza, Adão uniu-se a eles no pranto. A
lembrança do Salvador, contudo, o consolou. Enxugando suas lágrimas e as de seu
filhinho, disse-lhe com ternura: -"Podemos nos alegrar filhinho ,pois Deus
prometeu fazer o sol para sempre brilhar no céu; ele será como o fogo que surge
no altar, banindo as trevas da noite". Com os olhinhos voltados para o
último clarão do arrebol, Caim permaneceu sem consolo. Naquele entardecer, não
houve como de costume um alegre jantar. A pequena família, entristecida,
permaneceu silente a meditar por longas horas, até sonolentos adormecerem sob a
luz das estrelas. O inimigo e suas hostes, em sarcasmo de maldade zombaram naquela
noite do sofrimento de Deus e Seus fiéis. Repetindo as palavras de rebeldia do
pequeno Caim, ufanava-se como vencedor. Num desafio ao Criador pronunciou : -
Veja como esse meu pequeno escravo te rejeita! O mesmo se dará com todos
aqueles que hão de nascer. Estou certo de que o direito de domínio jamais sairá
de minhas mãos. Todas as hostes rebeldes repetiram em eco as afrontas do
enganador, humilhando os súditos da luz que sofriam do lado do Eterno. Com suas
afrontas, o inimigo procurava fazer Deus desistir de Seu plano de redenção. Se
isso acontecesse, seu reino de trevas se estenderia por toda a eternidade ,
suplantando o domínio da luz. Em resposta ao desafio do inimigo, o Eterno
afirmou solenemente : - Ainda que todos me rejeitem , Eu cumprirei a promessa.
O Criador não suportava o pensamento de ver o pequeno Caim caminhar para a
perdição. Por ele intercedia a cada dia, oferecendo ante a justiça o Seu sangue
que verteria. Anjos poderosos guardavam-no a cada momento, espancando as trevas
espirituais que o acercavam procurando torná-lo insensível aos benefícios da
salvação , que eram ilustrados pelos símbolos. Adão e Eva em seu incansável
ministério de amor, todos os dias ensinavam a Caim as lições espirituais
ilustradas na natureza. Em cada sábado procuravam firmar em sua mente juvenil a
esperança de uma vida eterna, que seria fruto do sacrifício do Salvador. Ele
depois de viver uma vida sem pecado, morreria como um cordeiro , para poder
expulsar para sempre as trevas. Caim comovia-se às vezes com os ensinamentos ,
mas quase sempre questionava vacilante. Revoltado perguntava: - Por que Samuel
foi se rebelar?! Certa noite, recusando ouvir os conselhos de seus pais, os
acusou de todo o mal dizendo: - Se agora não temos um sol a brilhar, é por
culpa de vocês." A contemplação do Éden distante banhado em sol fez nascer
no coração juvenil de Caim pensamentos de aventura. Ele começou a pensar :
"Este paraíso não está tão longe como afirmam papai e mamãe. Por que
esperar e sofrer tanto tempo?! Ele é tão belo! É dele que surge todos os dias o
sol! Se o conquistarmos, será fácil deter a luz em sua nascente; Assim
viveremos num paraíso de eterno sol. As idéias de aventura de Caim, enchiam o
coração de Adão e Eva de tristeza. Viam que seu interesse era somente pelo
tempo presente; ele sonhava com um paraíso de felicidade e luz conquistado por
sua força. Em seus planos, não sentia necessidade de um Salvador; - Para que,
se era tão jovem, inteligente , cheio de vida e ideais?- dizia. Os dias de
lutas, intercessões e sacrifícios pelo destino de Caim foram se passando.
Oportunidades preciosas surgiam em cada dia diante dele para se apegar ao Salvador,
mas a todas rejeitava, uma por uma. Em sua incredulidade chegou a duvidar da
existência desse Deus, o qual jamais vira. Aos pais que, aflitos mas sempre com
paciência, procuravam livrá-lo da perdição para a qual estava caminhando,
prometeu um dia , após sorrir com ar de incredulidade, crer no Criador e em Seu
plano de salvação, caso Ele se tornasse visível na hora do sacrifício. Com
ardente fé, aqueles pais passaram a clamar ao Eterno. Sua presença visível
poderia, quem sabe, salvar aquele filho querido que a cada dia tornava-se mais
rebelde. O Criador ouviu o clamor dos pais aflitos. Embora soubesse que Sua
aparição dificilmente quebraria no coração do jovem Caim seu espírito rebelde,
estava disposto a cumprir o pedido. Estenderia os braços amigos a Caim,
procurando com amor conquistar-lhe o coração. Como conhecia os seus anseios e
sonhos de aventura, facilmente poderia identificar-Se com ele, cativando-o,
pois era também Alguém que sempre carregara no peito sonhos de aventura; Não
fora a criação do Universo uma grande aventura?! Não fora o Seu sonho vê-lo
cravejado de sóis fulgurantes, iluminando bilhões de mundos com o seu brilho?!
Não era também o Seu maior atravessar o vale da morte, em busca da conquista do
Éden distante, prendendo para sempre o Sol em seu céu?! Tinham muita coisa em
comum! Caim estava curioso naquela sexta-feira. Na face dos pais, via ânimo e
alegria, frutos de uma fé grandiosa. Incentivado por essa expressão de
confiança, o jovem passou a ajudá-los nos preparativos para o santo sábado. O
Sol finalmente esquivou-se rolando para o poente, deixando como de costume seu
rastro de saudade que anunciava medo. Em meio às trevas, Caim discerniu o vulto
branco do cordeiro sendo erguido para o altar pelas mãos do pai - esse
incansável sacerdote que sempre estava implorando ao Criador pela salvação de
seu amado filho. Com a mão erguida, Adão preparava-se para o golpe que poderia,
quem sabe, quebrar no coração de Caim sua incredulidade, fazendo nascer num só
momento a crença na salvação. De seus lábios escapa-se então a prece da fé: -
Pai Eterno, ouve o meu pedido; Meu filho precisa de Ti! Somente um olhar Teu
poderá conquistá-lo. Venha Senhor!! Esta oração sincera caiu nos ouvidos
daquele filho comovendo-o. Somente a prece já seria suficiente para convencê-lo
da existência real de um Salvador. Enquanto enxuga as lágrimas da emoção, Caim
estremece ao ouvir o ruído do golpe da morte. Tudo era solene naquele momento;
Viria o Criador do mundo em resposta à oração do amor?! Como O encararia em sua
incredulidade?! Um forte brilho envolveu logo toda a colina banhando também o
vale oriental .Os olhos arregalados de Caim pousaram então nos olhos amáveis do
Criador, que trazia na face um brilho superior ao do sol, mas não ofuscante.
Contemplando-O com admiração, Caim exclamou: - Ele é jovem como eu, e se parece
com o Sol! Adão e Eva, comovidos pela grande saudade tinham vontade de saltar
ao peito do Salvador e beijá-Lo, mas deixaram que Ele Se encontrasse primeiro
com Caim. Com alegria , viram o precioso filho envolvido nos braços do grande
amigo, que era parecido com o seu astro. Depois de longo abraço, Deus abraçou e
beijou também o querido casal, companheiros no sofrimento. Com alegria, saíram
a passear pelos jardins da colina. Ao centro iam o Criador e Caim, ladeados por
Adão e sua companheira. Quanta felicidade experimentavam nesses passos! Estavam
completos. Caim, conquistado pela afeição do Pai Eterno, mostrou-Lhe seus
animais de estimação e seu pequeno jardim carregado de lindas flores. Como
estava encantado por vê-los coloridos naquela noite desfeita pelo brilho do
Criador, como sob a luz do dia! Parecia até mesmo que o Sol baixara a eles. Ao
pensar no Sol, Caim como o amava muito, passou a falar sobre ele dizendo: -
Como ele é belo e bom! Quando ele vai-se embora, deixa em suas lágrimas de
sangue um sentimento de tristeza e temor. Tudo desaparece em sua ausência : os
animais, o jardim; até os passarinhos silenciam os seus cantos! ...Mas basta
ele dizer que vai aparecer, tudo se enche de encanto; A natureza se desperta de
mansinho, parecendo ainda temer as trevas, mas quando as vê fugir , fica alerta
e canta; Os animais, os passarinhos, o jardim,... tudo volta a viver feliz!
Mas, esta felicidade sempre acaba!!! Após falar estas palavras, Caim fitando o Criador
indagou curioso: - Papai sempre diz que foi você quem criou o Sol. É verdade?
Com um sorriso de sinceridade Deus respondeu-lhe que sim. - Quando Você o fez
no princípio, continuou Caim, ele já fugia para o poente? - Ele nunca foge,
respondeu o Eterno, é o mundo quem foge dele. Ele fica triste com essa
ingratidão! --Mas como? Perguntou Caim, contemplando curioso Sua face de luz .
Com palavras carinhosas, Deus passou a contar-lhe a história de Lúcifer que, em
sua ingratidão baniu de seus olhos e dos olhos de uma multidão de criaturas, o
brilho de Sua face - o Verdadeiro Sol. Depois de assim agir, iludiu a muitos
dizendo que foi o Sol quem fugiu deles. Com sua astúcia, continuou o Criador, o
anjo rebelde procurou arrastar o ser humano para as trevas, e conseguiu. O Sol
naquele dia, chorou tantas lágrimas de sangue, que banhou todo o céu. Em seu
último suspiro de luz, porém, ele prometeu ao mundo já tomado pelas trevas,
voltar um dia a brilhar para sempre, enchendo todo o seu seio de vida. Após
falar-lhe estas palavras, o Eterno fitando aquele jovem, com expressão de
tristeza nos olhos concluiu dizendo: - Hoje, o anjo rebelde promete a seus
seguidores que irá com sua força deter o sol, mas ele jamais conseguirá
realizar esse plano, pois não possui o laço que poderá detê-lo : o amor.
Cabisbaixo, Caim ouviu dos lábios do Criador essa história de promessas, a qual
já se cansara de ouvir de seus pais. Essa história não lhe dava prazer, pois
mostrava uma noite longa de sacrifícios sobre o altar, e de um Salvador a
perecer em dor. Em realidade, Caim não via razões para tudo isso. Por que não
banir logo o sofrimento colorindo as trevas de luz?! Num esforço para
conquistá-lo, o Eterno com muito amor fitou aquele jovem insatisfeito, e
disse-lhe que, somente o sangue de Seu sacrifício poderia fazer o Sol para
sempre brilhar, num reino de eterna felicidade e paz. Não havia outro caminho
para essa conquista. Por isso, deveria ser paciente, descansando-se sob o Seu
cuidado. Após conversar por longo tempo com Caim, na tentativa de fazê-lo
reconhecer sua necessidade de salvação, Yahweh voltando-Se para o casal, passou
a consolá-los com a promessa do nascimento de outro filho. Mais trinta e seis
sacrifícios seriam contados, e seus braços envolveriam o segundo filho.
Nasceria também da dor, mas traria nos olhos o brilho e o consolo da salvação.
O seu testemunho de fidelidade ficaria perpetuado por todas as gerações, no
símbolo de um altar coberto de sangue. As semanas iam se passando, trazendo ao
casal novas de alegrias e tristezas : de um coração cheio de vida a pulsar no
ventre de Eva, e de um vazio com cheiro de morte a crescer no coração do jovem
Caim. Ainda que ele tenha ficado deslumbrado ante a manifestação de Deus, em
nada essa aparição mudou-lhe sua maneira arrogante de pensar sobre o sentido da
vida. Ele não via sentido nos sacrifícios oferecidos no altar. Nos dias que
seguiram o seu encontro com o Criador, ele argumentava com os seus pais
dizendo: - Se eu fosse poderoso como o Eterno, eu jamais me submeteria ao
sacrifício para reconquistar o reino perdido. Ele é forte, e brilha como o sol.
Ele poderia com uma só palavra expulsar todas as trevas, devolvendo-nos o
paraíso. Para que tanto sofrimento?! Com essa argumentação, Caim supunha-se
mais sábio que o Criador. Quem sabe, num próximo encontro teria oportunidade de
aconselhá-Lo. Dessa forma, o jovem Caim aprofundava-se cada vez mais no abismo
do orgulho e do egoísmo - lugar de ilusões para onde se ia, pensando estar
caminhando para a vitória. Não fora Lúcifer juntamente com um terço das hostes
celestes atraídos por essa mesma ilusão?! O bondoso Deus , todavia, não selaria
o destino de Caim sem antes procurar de todas as formas salvá-lo da ruína
eterna. Essa graça imerecida, fruto do divino amor, seria concedida a todo o
ser humano que viesse a nascer neste mundo.
A História do
Universo Capitulo VII
As trinta e seis
semanas anunciadas pelo Criador cumpriram-se, trazendo a noite do santo sábado,
na qual subiria ao altar o cordeiro da promessa - aquele que mergulhando nas
trevas, faria brilhar nos olhos de Abel o consolo da luz. Semelhante ao
cordeiro, Eva sentia naquela noite a dor de dar a luz. Adão, com suas mãos
ainda banhadas pelo sangue do sacrifício, envolveu o frágil corpo daquela
criança com as peles macias de uma ovelha - vestes que simbolizavam a justiça
protetora do Salvador. Contemplando- o acalentado em seus braços, Adão
disse-lhe com carinho: "Filhinho, o teu pai é Deus". Deu-lhe então o
nome de Abel. Quando no alvorecer Caim testemunhou a alegria de seus pais pelo
nascimento daquele filho, foi possuído por sentimentos de ciúmes e mágoas.Com
grande ira disse-lhes que, por sua vida, somente os vira chorar. Seria esse
pequeno intruso o único digno de suas alegrias?! Adão e Eva com carinho
procuraram mostrar a Caim o quanto o amavam, e que o nascimento de Abel não
devia entristecê-lo, mas alegrá-lo pelo privilégio de ter um irmão que lhe
seria amigo e companheiro; Poderiam trabalhar unidos na transformação do mundo
num paraíso de paz. Abel, envolvido pela graça divina crescia em sua natureza
física e mental. Ainda pequeno, passou a entender o significado daqueles
sangrentos sacrifícios. O pensamento de que o Criador do Universo haveria de
tornar-se uma criança como ele, com a missão de oferecer-se em sacrifício como
aqueles inocentes cordeiros, para redenção dos pecadores, emocionava-o até as
lágrimas. Como Caim, Abel amava a natureza com seus jardins cheios de flores e
frutos; Sentia-se também triste ao ver o sol tombar no horizonte, ferido pela
escura noite. Contudo, alimentava-se não de sonhos em aventura, mas de
esperança e confiança naquele que semelhante aos cordeiros se entregaria ao
altar, para depois de aquecer com a luz de Sua verdade o coração do homem em
meio à noite de pecado, surgir como o sol de sábado, trazendo consigo a eterna
vitória. O casal, fecundado pelo amor divino, gerou duas meninas que, por sua
vez, passaram a ser disputadas na grande batalha espiritual pelo destino do
Universo. Conscientes de sua responsabilidade, aqueles pais procuravam imprimir
na mente de suas filhas, as eternas verdades do reino da luz. Nesse esforço,
eram auxiliados por Abel, para quem o plano da redenção era o tema de suas mais
doces meditações; Bastava olhar para um cordeiro, vinha-lhe à mente a doce
lembrança da redenção prometida. Foi seu grande amor pelo Criador que levou-o a
tornar-se num pastor de ovelhas. A influência de Caim, contudo, era negativa
sobre aquelas meninas. Ele vivia falando de seus sonhos de aventura. Apontando
para o paraíso distante, berço do sol nascente, prometia conquistá-lo um dia
com suas forças. Não haveria mais noites, pois ele deteria o sol antes de sua
partida. Em sua conquista, transformaria os vales sombrios em jardins floridos
repletos de paz. Inspirado por esse ideal, Caim tornou-se lavrador. Plantava
jardins que se carregavam de flores e frutos. Lutava insistentemente contra
espinhos e cardos, os quais acreditava poder finalmente bani-los completamente
com seus esforço . Pobre Caim, escravo de uma ilusão! Caim tornou-se finalmente
em estatura semelhante ao pai. Trazia na face corada as marcas do sol que tanto
amava, e em seus músculos a força que julgava necessária para detê-lo antes de
sua partida. Movido pelos sonhos alimentados desde a infância, preparava-se
agora para uma viagem de aventuras: Desceria ao desconhecido vale e caminharia
em direção à casa do sol. Não sabia por quantos dias se ausentaria de seu lar,
mas tinha a certeza de que seria vitorioso em sua missão. Cheio de entusiasmo,
Caim revelou aos seus familiares sua decisão de partir. Todos ficaram
preocupados, e procuraram insistentemente fazê-lo desistir de seu plano. No
vale, disseram-lhe os pais, habitam animais ferozes, sempre prontos a devorar.
Entre risos, Caim procurou convencê-los falando de sua força. Dizia-lhes que em
sua jornada, longe de encontrar derrotas, encontraria o caminho perdido que os
conduziria à reconquista do sonho desfeito pelo pecado. Abel, conhecedor do
verdadeiro caminho que leva à vitória, com lágrimas de compaixão procurou
detê-lo, falando-lhe do plano da redenção. Voltando-lhe as costas, Caim saiu
contrariado. Irava-se por não encontrar por parte de sua família, nenhum apoio
para sua tão nobre missão. Adão e Eva, acompanhados por Abel e as duas filhas,
com tristeza seguiram-no implorando para ficar, mas ele adiantando-se em seus
passos desceu a colina, mergulhando naquela ameaçadora selva que os separava do
paraíso. O entardecer alcançou Caim já distante do lar, naquela floresta
perigosa e hostil. As trevas trouxeram ao seu coração temor; Já não era aquele
corajoso lutador que prometera vitória em todos os seus passos. Lembrou-se de
casa e teve arrependimento da maneira ingrata como havia tratado seus pais
naquela manhã. Ali no vale escuro, pela primeira vez ansiou pelo fogo do
sacrifício; Contudo, ele jamais acreditara na redenção simbolizada pela morte
do cordeiro! Ele cria no poder de sua vida que, aquecida pelo sol, crescia em
força e esperança de um dia poder detê-lo sobre um reino de eterna paz e
harmonia. No lar, seus pais e irmãos não conseguiam dormir. Tinham vontade de ir
a busca do amado Caim, mas onde encontrá-lo? Lembravam dos demônios cruéis que
invisíveis infestavam o vale, atormentando os animais que dia após dia iam
tornando-se mais ferozes. Em agonia prostraram-se aos pés do Criador invisível
e clamaram fervorosamente pela sua proteção. Rogavam-Lhe que o trouxesse de
volta para o lar, pois sem ele, tudo era tão triste. O Eterno amava
profundamente a Caim e, jamais o deixaria sozinho naquela floresta. Em resposta
às preces daquela família aflita, enviou Seus anjos para protegerem-no de todos
os perigos. Caim, vencido pelas opressivas trevas da noite que traziam consigo
os ventos do temor, tombou irresistente ao solo frio. Ali permaneceu até ter
sua coragem e força restabelecidas pela luz do alvorecer. Animado pelo brilho
da esperança, continuou seus passos de aventura rumo ao berço do sol : paraíso
com o qual sonhara desde sua infância. Seus pés conduziram-no naquele dia
através de um vale intensamente marcado pela morte. Com espanto contemplava por
todos os lados ossos secos e restos de animais devorados com ferocidade. Aos
seus ouvidos atentos, chegavam uivos e gritos de feras ameaçadoras. Embora
banhado pelo sol, Caim começou a ficar com medo. Imóvel, lembrou-se do lar, dos
conselhos e rogos dos pais; Pensou nas constantes preces que faziam por ele;
Estava certo de que não deixariam de clamar por sua segurança ali naquela
perigosa floresta, apesar de sua ingratidão. Tomado de espanto, viu finalmente
o sol lentamente caminhar para a sua morte diária. Se em sua presença tremia, o
que lhe reservaria a escura noite?! Revivendo, contudo, os sonhos que tivera
desde a infância, como um soldado que mesmo atingido por um golpe, se levanta
num último esforço de vencer, Caim alimentou-se de ânimo; Venceria o medo, e
conquistaria toda a selva, banindo dela todos os ossos secos e os sinais de
morte. Revigorado pelos ilusórios planos, em passos firmes prosseguiu sua
jornada . Pobre Caim! O primeiro de uma multidão que, escravizada pelos mesmos
sonhos de progresso, caminharia para dentro da noite, julgando encontrar o
berço de toda a luz. Diante dos olhos de Caim que jamais podia imaginar que
todo passo que dava o levava para mais longe daquele sol que almejava
conquistar, brilhou distante por entre as ramagens uma fulgurante luz. Cheio de
curiosidade, apressou os passos, indagando silente : Mas como, se eu o vejo
declinar?! Seria outro astro que em seu berço aguardava o momento de partida
para aquele suplício diário? Com o coração pulsando forte pela emoção,
adiantou-se em seus passos, julgando poder naquele novo dia detê-lo em sua
partida; Inauguraria assim um reino de luz, conquistado por sua força. Correndo
para a luz, porém, a viu desvanecer quando já próxima; Seria vertigem? Não.
Desvanecera simplesmente para revelar-se mais brilhante aos seus olhos.
Observando o brilho intenso, Caim ficou perplexo ao ver que procedia da face de
um poderoso querubim protetor que, desde a queda de seus pais permanecera ali
velando as divisas do Éden. Mudo, Caim contemplava a meiga face daquele anjo
que, expressiva de amor, fazia renascer em seu coração emoções da infância.
Sentia-se agora esquecido de sua missão, revivendo em lembrança o encontro que
tivera com o Criador naquela noite de sacrifício. O querubim era semelhante a
Deus, tendo no rosto um brilho de sol. Estampando no semblante preocupação, o
anjo depois de contemplá-lo demoradamente perguntou-lhe: - O que busca meu
filho? Recordando o seu esquecido ideal, Caim respondeu: - Busco a fonte do
dia, o berço do sol." O anjo continuou perguntando: - O que o leva a
procurá-lo com tanto anseio". Caim respondeu: - Eu sou amante de sua luz
que me faz ver em cada dia o fruto do meu labor. Admiro-o desde a minha
infância, por isso trago no peito o ideal de um dia detê-lo sobre o céu".
O querubim contemplava-o penalizado, sem saber como convencê-lo daquela ilusão
alimentada durante tantos anos. Após um momento de silêncio, o anjo com ar de
tristeza, procurando fazê-lo recordar as palavras que o Criador lhe dissera
naquele encontro, perguntou: - Com que você irá detê-lo? Confiante, Caim ergueu
os braços em resposta. Não construíra enormes jardins com eles?! anjo, num
esforço de fazê-lo entender que o sol é um símbolo do Salvador, disse-lhe: -
Caim, nada poderá detê-lo a não ser o amor. Quem ama, caminha na mesma direção.
Para onde você o vê caminhar todos os dias? Não é para o ocidente? Segue então
os seus passos e jamais o verá chorar lágrimas de sangue. Acompanha-o em sua
caminhada e verá que o que você sempre chamou de morte, consiste num alegre
alvorecer para um continente além, perdido nas trevas." A afirmação do
anjo fez Caim lembrar-se das últimas palavras ditas pelo Eterno naquela noite
transformada em dia. Ele dissera que somente o sangue de Seu sacrifício poderia
fazer brilhar a luz que triunfaria para sempre sobre as trevas. Contrariado,
Caim baixara a cabeça, determinado a não seguí-Lo nessa direção. Abalado, Caim
encontrava-se agora diante de uma séria decisão que mudaria o rumo de sua vida
e de uma multidão que poderia seguí-lo. Mudo e a tremer permanecia prostrado
aos pés do anjo, enquanto renhida luta travava-se em seu íntimo. Desde a
infância alimentara um ideal, caminhando na direção de um paraíso o qual
julgava poder conquistar pela força. Agora o anjo apontava-lhe um caminho
oposto, de amor e sacrifício: o mesmo ensinado pelos pais e pelo Criador.
Arrependido, Caim desejou retornar para casa, mas o inimigo se opunha
inspirando-lhe vergonha; Como encararia sua família, a quem prometera vitória
pela sua força, ao retornar de mãos vazias?! Com o jovem Caim, prostrado aos
seus pés, o anjo com voz de ternura instava: - Filho, volte ao lar! Não há
caminho de vitória além do amor. Ele poderá ter espinhos e no trajeto um altar,
mas é um caminho seguro, pois sempre leva o viajante aos braços de uma família
amorosa que, com saudade espera o fruto de seu perdão. Não será humilhante
voltar; Não é esse o caminho do sol?! O caminho do orgulho é sempre
desconhecido; Em seu trajeto pode ter flores e a promessa de que não haverá altar,
mas o seu fim é sempre dentro da noite, distante dos braços aquecidos pelo
perdão. Volte ao lar filho! Volte!!! O anjo com seus amorosos conselhos
conseguiu finalmente convencer Caim. Ele estava resolvido a percorrer o caminho
do amor , desfazendo os passos até ali movidos pelo egoísmo. Aguardaria agora o
sol para com ele seguir humildemente rumo ao altar que, não mais lhe falava de
derrota, mas de triunfo sobre a morte. Na colina distante, permanecia a família
rogando incessantemente por Caim. Em seu anseio, não conseguiam ficar longe
daquele altar, berço de lágrimas e sangue. Ali junto a ele, Caim viera ao
mundo, banhado pela luz do sacrifício; Ali fora instruído no caminho da
salvação. Ali aguardariam com fé, até vê-lo retornar arrependido. Sob o sorriso
do anjo, Caim vencido pelo cansaço de seus sonhos desfeitos, adormeceu a um
passo do paraíso de muralhas invisíveis - muralhas que somente poderiam ser
finalmente transportas pelo amor que sacrifica. Uma brisa suave despertou-o
naquela manhã, convidando-o a seguir o sol naquela jornada rumo ao altar. Como
dois companheiros avançariam sobre os espinhos, quebrando-os com os seus pés
feridos; Como guerreiros caminhariam rumo à colina do entardecer, não para
serem vencidos pela noite, mas para destruírem-na em sua fuga. Nessa marcha de
resgate, tombariam finalmente sobre o altar distante, não vencidos pela morte,
mas conquistando a vida nascida da luz. Com humildade, Caim deu os primeiros
passos no caminho do arrependimento - caminho que logo após o altar, lhe
descerraria o seu lar de amor. Eram passos movidos por fé, pois diante de si
não podia ver a face de seu companheiro, o sol, mas tinha certeza de sua
presença, pois nos ombros podia sentir seu calor a acariciá-lo num terno
abraço. Eram companheiros de jornada pelo caminho da vitória. Era o sexto dia.
Na colina, a família, ansiosa, encontrava-se reunida desde a manhã ao redor do
altar, inconsciente da experiência de transformação vivida por Caim lá nas
divisas do Éden. Com lágrimas rogavam a Deus pelo querido Caim, ansiando vê-lo
retornar. Como era o dia da preparação, uniram-se no trabalho, deixando tudo em
ordem para receberem o santo sábado: limaram os jardins, colheram alimento,
prepararam as vestes e separaram o cordeiro para o sacrifício. Foi uma atividade
muitas vezes interrompida por idas ao altar, onde estendiam demoradamente o
olhar sobre o vale, na esperança verem surgir aquele a quem tanto amavam. Caim,
embora cansado da longa jornada, continuava avançando com ligeiros passos,
desejando alcançar o sopé da colina antes da noite. Podia divisá-la ainda
distante, banhada pelo sol poente. O entardecer que até o dia anterior fora
visto como a vitória das trevas sobre a luz, processava-se diante de seus
olhos. Via agora o sol envolto por nuvens tintas de um vermelho vivo, tombar
como um herói vitorioso, prestes a libertar um continente além, do poder da
noite. A escuridão envolveu o vale, e nele Caim que, com os olhos fitos no
último clarão a dissipar-se no horizonte, esforçava-se em prosseguir em seus passos.
Na colina, o patriarca Adão, com o coração a palpitar de saudade, anseio e dor,
preparava-se para oferecer o sacrifício. Intercederia como nunca nessa noite
pelo seu filho, cuja ausência torturava sua alma. Eva, em passos lentos, cheia
de tristeza, seguiu seu esposo rumo ao altar, acompanhada por Abel e suas duas
filhas. Sofriam muito naquela noite, pela ausência de Caim. A esperança de
revê-lo fora quase que totalmente banida. Num doloroso esforço Adão ergueu o
cordeiro, deitando-o sobre o altar. Quão doloroso era sacrificar, mas não havia
outro caminho Cabisbaixo em meio às trevas , Caim refletia. Todo o seu passado
construído por ilusórios sonhos o via em cacos. Estava no limiar de uma nova
vida, como uma criança recém nascida sob a luz do altar. Caim esforçava-se para
identificar aquele dia especial, de sua conversão. A lembrança do último
sacrifício o conscientizava de ser véspera de sábado. Havia saído de casa no
quarto dia da semana, quando os seus passos conduziram-no para dentro de uma
noite escura e fria, na qual temeu a morte. Refeito, ao amanhecer do quinto
dia, prosseguiu rumo ao desconhecido, até deter-se amedrontado no vale dos
ossos, onde a tarde transformou-se em noite. Foi dali que contemplou o brilho
do anjo que o atraiu com o seu amor. Detido em meio às trevas, Caim recordava
com emoção os conselhos do anjo que o levaram a uma mudança de rumo. Lembra-se
de seus passos de fé que moveram-no durante todo aquele sexto dia rumo ao lar.
Caminhar sob o brilho do sol fora fácil, mas o que fazer agora, quando as
trevas o detinham nas selvas?! Caim, porém, alegrou-se ao saber que a escuridão
daquela noite seria em breve ferida pela luz do sacrifício. Com anseio
aguardava o momento de prosseguir sua jornada, orientado pelo fogo que lhe
indicaria o rumo de seu lar. Movido pela dor da saudade e pelo último raio de
esperança em abraçar o seu filho, Adão ergueu o cutelo para matar o cordeiro.
De seus trêmulos lábios, escapa-se então uma aflitiva prece em favor de seu
filho: - Senhor, hoje eu compreendo o quanto sofres com a rebeldia de teus
filhos rebeldes, que trocaram o teu amor e o calor de uma família amorosa que
vive no seio da luz, pelas trevas do vale, onde o desespero e a morte atraem
com ilusões de vitória. Neste momento minha mão está erguida para ferir esta
inocente ovelha que, com seu sangue precioso alimentará o fogo da esperança em
abraçar o meu filho que se encontra perdido. Faça Senhor, com que o brilho
desta chama possa alcançar o meu Caim onde ele se encontra, fazendo-o voltar ao
lar arrependido. Todas os súditos do Eterno com emoção contemplavam a comovente
cena de significado tão grandioso. Naquele pai tremente e aflito, pronto a
sacrificar em favor do filho errante, viam o grande Pai que, para atrair Seus
filhos humanos do vale da perdição, ofereceria o maior sacrifício. Após sua
angustiante prece, Adão imolou o cordeiro. O fogo da esperança ergueu-se
imediatamente em brilhante chama, expulsando as trevas que envolviam aquela
colina. Caim que movido pela alegria de ser sábado erguera a fronte nas trevas
na expectativa de contemplar o brilho da vitória, ergueu as mãos aos céus
agradecido quando viu surgir no escurecido horizonte a estrela da aceitação.
Cheio de ânimo prosseguiu em seus passos de fé. Embora lhe fosse impossível
enxergar e compreender todos os obstáculos que surgiam em seu caminho fazendo-o
tropeçar, mantinha o olhar fixo no brilho do cordeiro imolado, avançando
sempre, com a certeza da vitória. Os passos de Caim conduziram-no finalmente
para junto da colina, onde podia ver sua família reunida sob a luz do altar.
Com o coração pulsando forte pelo cansaço e pela emoção, galgou em ligeiros
passos a colina, detendo-se junto ao altar. Sua família, com os olhos cerrados
orava por ele. Não conteve as lágrimas, ao ouvir seu pai clamar: -"Senhor!
Meu Caim, meu Caim!!! Quando o envolverei em meus braços?! Quisera voltar ao
passado, quando com prazer tomava-o no colo. Ele era a minha alegria, e
esperava tê-lo sempre salvo junto a mim. Mas oh Senhor! Ele foi crescendo e se
afastando, levado pelos seus sonhos de aventura. E hoje, já é o quarto dia sem
o nosso Caim! Meu coração está partido pela sua ausência, e já não suporto
viver sem ele! Se for possível Senhor, traga de volta o nosso Caim, e que ele
seja feliz ao Teu lado. Amém Terminada a prece, Adão abriu os olhos para
contemplar a chama do perdão que poderia, quem sabe, atrair seu filho daquele
vale sombrio. Seu olhar pousou de cheio em Caim que jazia prostrado junto ao
altar. Sem conter a alegria, Adão com um brado de vitória saltou para junto de
seu filho, envolvendo-o em seus braços. Toda a família o acompanhou nesse gesto
carinhoso, festejando com risos e lágrimas de emoção, o retorno daquele filho e
irmão amado. Sob a luz do altar, todos assentaram-se finalmente, passando a
ouvir com atenção a experiência passada por Caim naquela densa floresta. Ele
contou do medo que sentiu naquela primeira noite fora de casa; falou do vale da
morte, onde viu tantos ossos de animais devorados com ferocidade; contou da luz
que surgira ao entardecer, fazendo-o apressar seus passos julgando ser o
surgimento de um sol. Falou do brilhante anjo que o atraíra para as divisas do
Éden, levando-o com seus conselhos e palavras de sabedoria e amor a uma mudança
de rumo. Contou de seu retorno, das lutas e tentações que teve de enfrentar a
cada passo. Concluiu contando da alegria que sentiu, ao ver naquela noite o
surgimento do fogo sobre o altar, que semelhante a uma estrela, guiou os seus
passos através daquele vale tomado pelas trevas. Para a família, consolada pelo
retorno de Caim, surgiu finalmente o alvorecer da alegre vitória, trazendo em
sua brisa o aroma dos verdejantes prados edênicos cobertos de eternas flores.
Naquela manhã de sábado, uniram-se em cânticos de gratidão ao Criador, pela
vida, pelo perdão, e pela certeza de que sua feliz união jamais seria maculada
pelo pecado.
A História do
Universo Capitulo VIII
Desde o momento em
que Caim passara a trilhar pelo caminho da salvação, Satã e suas hostes cheios
de ira passaram a fazer planos para reconquistá-lo. Decidiram lançar sobre ele
densas trevas espirituais, causando angústia e desânimo em sua nova
experiência. Estavam certos de que persistindo com essa pressão, alcançariam
vitória. Conhecendo os planos de Satã, o Eterno ordenou Seus anjos a combaterem
as trevas que circundariam o jovem Caim. Ainda que conhecesse o seu futuro de
rebeldia, o Criador faria todo o possível para mantê-lo a salvo das garras do
inimigo. Sobre a colina, naquele lar repleto de felicidade, Caim tornara-se
após sua conversão no motivo principal dos louvores e comemorações. Como uma
criança, humilde e submissa, Caim andava entre os seus tendo na face o brilho
do amor e da esperança, que eram nutridos sob a luz do altar. Com lágrimas de
gratidão distinguia agora em cada cordeirinho imolado o Redentor vindouro que
pereceria em dor para oferecer-lhes a luz da eterna vitória. Com alegria, Caim
testemunhava diante de sua família e diante do vasto Universo, da paz que agora
inundava sua alma agora renascida; Jamais experimentara antes sensação de tanta
liberdade, de tanto amor. Sobre sua mente refrigerada, contudo, começou a
baixar as sombras da provação que se intensificaram até mergulharem-no em
escura noite. Era assediado por tantas tentações que pareciam revigorar em seu
coração os sonhos ilusórios de seu passado. Vozes pareciam gritar em seus
ouvidos dizendo: - Deixe esse caminho que não leva a nenhuma vitória! Chega
desses sacrifícios sangrentos que enaltecem a morte! Contemple os jardins que
você plantou, e veja como eles comemoram a vida. Você é sábio e forte, e poderá
construir um império de paz e prosperidade, colorido por extensos jardins que
florescerão numa eterna primavera de sol. Sacudido por essa tempestade de
tentações, Caim quase vacilando, deixou transparecer em seu semblante a agonia
que lhe inundava a alma. Assim, sua aflição foi logo percebida põe sua família
que, preocupada procurou saber dele as razões de sua angústia. Temendo expor
para sua família o que lhe afligia, calou-se afirmando que era apenas um
sentimento de pesar que logo passaria. Os pais ficaram aflitos, pois concluíram
acertadamente, que era Satã quem estava pressionando-o com o objetivo de
arrastá-lo novamente para a escravidão. Com lágrimas, aqueles pais clamaram ao
Criador em favor daquele filho que, aflito, caminhava de um lado para o outro
procurando encontrar alívio. Anjos poderosos empenhavam-se insistentemente
naquele conflito que travava-se invisível aos olhos humanos. Ainda que
severamente provado, Caim não chegaria ao ponto de ser forçado pelo inimigo a
render-se ao pecado. Havia um exército ao seu lado para ampará-lo em seus
passos de fidelidade. Todo o Universo estava atento para as decisões de Caim,
que poderiam influir na experiência de incontáveis seres humanos que seguiriam
os seus passos. Orientado pelo exemplo de seus pais, Caim buscou na oração o
refúgio para sua alma torturada. Com fervor implorava ao Criador que firmasse
os seus passos. Embora sentisse forte apelo para voltar ao caminho do orgulho e
da aventura, estava decidido a continuar seus passos pelo trilho acidentado do
amor e do sacrifício. Temendo não alcançar o seu objetivo sobre Caim, Satã
ordenou seus guerreiros a suspenderem aqueles desesperados ataques. Disse-lhes
que através de sutil engano, lograriam a vitória que dificilmente alcançariam
pela força. Com isso, a paz voltou a reinar na mente de Caim que, unido à
família, cantava louvores ao Eterno, o autor de sua salvação. Enquanto aquela
família com alegria comemorava mais uma vitória alcançada na vida de Caim, as
hostes das trevas estavam reunidas tramando novos planos de ataque. Muitas
idéias foram apresentadas, mas prevaleceram aquelas elaboradas por Lúcifer, arquienganador.
Ele afirmou confiante: - Se tão nos aproximarmos de Caim como amigos em sua
jornada no caminho da salvação, inspirando pensamentos e sentimentos de fé no
Redentor, não nos será difícil introduzir com sutileza as sementes da rebeldia
que, germinarão uma a uma em seu coração confiante, fazendo-o menosprezar
finalmente os sacrifícios de sangue sobre o altar, com o pensamento de não mais
depender desse símbolo para ter em mente o Salvador vindouro. Quando iludido
julgar haver alcançado o amadurecimento espiritual, estará novamente no
abismo". Naquela colina, que era centro das atenções de todo o Universo, sucediam
para a pequena família dias de alegria, prosperidade e paz. Cresciam cada vez
mais em sabedoria e graça, trilhando no caminho da salvação. Por detrás dessa
paz, porém, inconsciente à família jubilosa, uma perigosa armadilha se armava.
O Eterno e Seus exércitos, preocupavam-se com essa situação, pois sabiam que
seus inimigos poderiam causar com esse disfarce, uma grande ruína à humanidade,
na experiência da qual se processa a redenção do Universo. Os guerreiros da luz
agora, não teriam de lutar contra as trevas, mas contra um falso brilho.
Envolvido por influências aparentemente positivas, as quais julgava proceder
todas do Criador, Caim tornava-se aos poucos confiante e bem seguro da vitória
prometida. Seu amor pelo Eterno parecia tornar-se imenso, e vibrava ao prever a
perfeita felicidade que alcançaria no alvorecer do dia eternal. Satã que atento
o acompanhava em sua experiência religiosa, viu haver chegado o momento de
atraí-lo com sua falsa luz, desviando-o do caminho da justiça. Orientou mais uma
vez seus guerreiros a agirem com cautela e paciência, inspirando sutilmente
pensamentos e sentimentos de aparente virtude que o levassem imperceptivelmente
a negligenciar por fim o sacrifício de sangue sobre o altar, julgando haver
alcançado em sua santificação um nível superior, no qual não se depende mais
daquele doloroso rito. Em seu amor pelo saber, e apego a toda a revelação, Caim
começou ter sua atenção voltada para o falso brilho que, inicialmente parecia
tornar mais claro e seguro o caminho da redenção. Com ânimo apresentava para
seus familiares que, admirados reuniam-se aos seus pés, os pensamentos de
aparente sabedoria e graça, gerados pela sua nova experiência. Longe estavam de
saber que aquelas idéias tão belas e cativantes, eram originadas por aquele que
através da serpente conseguira seduzir Eva. Em suas palavras e louvores, Caim
passou a exaltar o Salvador, bendizendo o Seu futuro sacrifício. Inspirando
esses pensamentos, Satã ganhava a simpatia não somente de Caim, como também de
toda aquela família. Todavia, Caim que aparentemente tornava-se num eloqüente
mestre e pregador da justiça e da verdade, iludido em sua falsa segurança,
começou a menosprezar em seus ensinos o sacrifício do cordeiro sobre o altar.
Argumentava que somente as ilustrações da natureza e as instruções verbais,
eram suficientes para gravarem na mente humana as verdades da redenção.
Apelando às emoções da família, dizia que o objetivo estabelecido pelo Criador
por meio daqueles sacrifícios, já havia sido alcançado na vida deles; poderiam
evitar agora essa dor, apresentando sobre o altar ofertas de flores e frutos,
símbolos naturais da redenção. Um grande laço armara-se sobre aquela família,
levando-a a uma grande luta íntima. De um lado estava o caminho da dor e do
altar banhado em sangue, e do outro, a alegria de uma aparente vitória,
comemorada por um altar coberto com flores e frutos. Caso aceitassem a proposta
vinda através de Caim, cairiam sob o domínio do tentador. Com a família em
prova, Satã insistia por meio de Caim, procurando levá-los a decidirem de seu
lado, afirmando que o Eterno não Se importaria com essa mudança, que expressava
amadurecimento e gratidão pelo Seu sacrifício, também simbolizado pelas flores
e frutos. Todo o Universo estava em comoção, diante da decisão que aquela
família estava preste a manifestar. O que estava em jogo, era o trono do
Universo. Depois de renhida batalha espiritual, conscientes do engano que se
escondia nas palavras de Caim, aqueles pais temendo serem arrastados para
distante do Salvador, decidiram rejeitar aquela proposta. Influenciados por
essa decisão em favor da verdade revelada pelo Eterno, Abel e sua irmã mais
nova colocaram-se ao lado dos pais. Somente a irmã mais velha, que cultivava no
íntimo grande admiração por Caim, permaneceu indecisa, favorecendo seu irmão
mais velho nas discussões que tiveram lugar. Embora contassem com a queda de
toda a família humana, as hostes inimigas da luz se alegraram em ter novamente
Caim como escravo. Batalhariam agora pela conquista daquela jovem indecisa que,
unida ao irmão, poderia se tornar mãe de uma geração pecadora, no seio da qual
se fortificaria o reino das trevas. Ao tomarem consciência da posição rebelde
de Caim, Adão e Eva, seguidos por seus dois filhos fiéis, passaram a rogar-lhe
com amor, tentando convencê-lo do erro. Aquele filho, contudo, mantinha sua
posição sem ser agressivo. Estava confiante de ter aprovação do Criador para
suas idéias revolucionárias. Caim estava triste por não ter toda a família a
seu lado, mas animou-se ante a manifestação de compreensão e apoio por parte de
sua irmã. A afinidade de suas idéias levava-os a passar longas horas
conversando sobre o futuro. Foi assim que nasceu entre eles a idéia da
construção de um novo altar onde Caim, como sacerdote, pudesse por em prática
um culto renovado, oferecendo em lugar de cordeiros, flores e frutos. Isso,
evidentemente, significava a formação de um novo lar, pois Adão como sacerdote
de um culto conservador, jamais permitiria que o altar de sua família fosse
maculado por um culto diferente daquele estabelecido pelo Criador. O ideal foi
crescendo no coração daquele jovem casal, trazendo sonhos de um lar repleto de
crianças a brincar num paraíso banhado em sol. Caim, o senhor e mestre daquela
nova família, a guiaria numa caminhada de vitória, iluminados pelo brilho de um
fogo mais brilhante que o do cordeiro, que se ergueria de seu altar coberto de
flores e frutos. Semelhante a Caim, Abel que se tornara também adulto,
enamorou-se de sua irmã mais nova - aquela que desde a infância estivera ligada
a ele por laços de íntima afeição. Juntos caminhavam pelos campos, apascentando
o rebanho, enquanto consideravam com interesse os ensinos de amor escritos na
natureza. Adão e Eva, bem como o Criador e suas hostes fiéis, encontravam consolo
e esperança na experiência desses dois jovens que, jamais deixaram de refletir
nos olhos a chama aquecida daquele altar que indicava-lhes o caminho sangrento
da redenção. Caim, em seu anseio por constituir um lar, unindo-se àquela a quem
amava, aproximou-se finalmente de seus pais, pedindo-a em casamento. Adão
compreendeu-lhe o anseio, e pediu-lhe que aguardasse a resposta do Eterno.
Apresentaria a Ele o seu pedido, e esperariam pela manifestação de Sua vontade.
Adão, o bondoso pai que a cada dia intercedia junto ao altar pela sua família,
e de uma maneira especial por aqueles filhos que se aventuravam em caminho de
ilusões, apresentou com tristeza o pedido de Caim ao Senhor da luz. Aguardariam
dEle a manifestação de Sua vontade sobre aquele passo tão importante no seio da
humanidade. Caim e sua irmã amada, aguardavam agora ansiosamente pelo dia do
sacrifício, quando poderiam com certeza ter um encontro com Aquele que tudo
criou. Estavam convictos de que Ele não recusaria a concretização de seu sonho,
e manifestaria apoio ao seu ideal de culto. O sol declinou-se ao fim daquele
sexto dia, dando lugar às trevas de mais um sábado. Toda a família reuniu-se
reverente junto ao altar, enquanto Adão preparava o cordeiro para o sacrifício.
Viria o Criador em resposta ao anseio daquele jovem casal?! Esta questão pesava
sobre todos eles, e em especial sobre Caim e sua irmã companheira. O Eterno
ouvira o pedido de Caim apresentado por meio de Adão, e estava pronto a
manifestar-Se em resposta a esse anseio. Pesava sobre seu Ser, contudo, uma
grande tristeza, pois não poderia abençoar aquele jovem casal com a plenitude
de felicidade e paz que almejavam obterem naquela união. Unicamente um
verdadeiro casamento poderia conferir-lhes essas virtudes. O Criador
estabelecera o matrimônio como um santo legado, de significado eterno. A união
do casal, sob a benção divina, deveria simbolizar a união espiritual entre Deus
e os ser humano. O casamento, portanto, perderia o seu sentido prefigurativa,
para aqueles que menosprezassem o símbolo dessa união, que encontrava, desde a
queda do homem, o seu ápice no sacrifício do cordeiro. O Eterno determinara
ensinar por meio da cerimônia do casamento, a verdade fundamental de que,
unicamente mediante a morte do Messias, há seu tempo, Ele poderia casar-Se com
a raça humana, numa eterna aliança de paz. Portanto, Sua benção somente poderia
ser obtida por aqueles que Se submetessem ao ritual simbólico. O cordeiro atado
sobre o altar, sentiu atravessar seu peito aquele cutelo de pedra que, depois
de causar-lhe profunda dor mergulhou-o na escuridão da morte. Sobre o sangue
que brotou de sua agonia, nasceu imediatamente uma luz que tornou-se intensa,
até afugentar todas as trevas que cobriam aquela colina. Em meio ao brilho, a
família reunida pode distinguir a presença gloriosa do Criador, que mansamente
inclinou-se sobre eles, com o Seu sorriso amigo. A felicidade daquele encontro
era imensa, pois já haviam passado muitos anos desde Sua última aparição, que
ocorrera por ocasião do anúncio do nascimento de Abel. Para eles, portanto,
aquele encontro era muito especial. Depois de saudar afetuosamente aquela
família, o Eterno comunicou-lhes as novas que poderiam ser de alegria.
Disse-lhes que ouvira o pedido de Caim, que Lhe fora apresentado por Adão, e
viera com o propósito de orientá-los acerca dos passos que deveriam dar para
concretização daquele sonho. Conscientizou-os primeiramente da responsabilidade
que assumiriam diante de dEle e de todo o Universo, pois em sua espontânea
união, trariam ao mundo filhos, os quais deveriam ser instruídos no caminho da
salvação. Falou-lhes também das funções que desempenhariam em seu novo lar.
Caim, semelhante a Adão, seria sacerdote e mestre ; Deveriam, portanto,
construir um altar, para sobre ele oferecer sacrifícios. Sua companheira, em
semelhança de sua bondosa mãe, deveria ser submissa e sempre pronta a
auxiliá-lo nas lides diárias. Com alegria, Caim e sua companheira ouviram de Deus
essas palavras de orientação e aprovação ao casamento. Abel e sua companheira que
aos pés do Criador ouviam atentos Suas palavras de aprovação ao casamento dos
irmãos, entreolhavam-se movidos por um intenso desejo de formarem também um
lar, onde seguindo o exemplo dos pais, poderiam desempenhar um ministério de
amor. Lendo em seus olhos o desejo nascido no coração, o Eterno com um sorriso
os envolveu com Seus braços, e disse-lhes que poderiam construir também o seu
altar. Com lágrimas de emoção, Abel e sua irmã prostraram-se aos pés do
Criador, agradecendo-Lhe por conferir-lhes tão sagrado dom. O Eterno passou a
orientar aqueles jovens com respeito à cerimônia que os enlaçariam.
Ordenou-lhes mais uma vez a construção do altar. Caim construiria o seu altar,
e Abel o seu. Preparariam cada um uma oferta especial, para oferecer em sacrifício,
na noite que antecederia ao próximo alvorecer do sábado. A aprovação e benção
de Deus ao casamento, se manifestaria na presença do fogo que surgiria sobre o
altar. Iluminados pelo brilho da presença divina, sua união seria selada diante
de todo o Universo, sendo considerados a partir desse ato, uma só carne. Essa
união, geradora de vida, consistiria num simbolismo perfeito da união do Eterno
com o ser humano, em virtude do sacrifício do Salvador. Com essas orientações e
ordens do Eterno, tornou-se claro para aqueles jovens pretendentes ao
matrimônio, que a única oferta aceitável, que poderia trazer a benção da
verdadeira união, seria o sacrifício de um cordeiro. Em meio ao júbilo daquela
família, a luz de Deus dissipou-se finalmente, ocultando-O de seus olhos. Sob a
luz do altar, permaneceram alegres a conversar sobre aquele futuro de
felicidade que acenava-lhes agora tão próximo. O sol surgiu finalmente,
trazendo em seus cálidos raios um alvorecer de brisa mansa a beijar-lhes a face
com o aroma do Éden, trazendo-lhes à lembrança as emoções daquele primeiro
sonho de Adão. Caminhando pelos campos férteis sobranceiros à colina, a pequena
família, seguindo instruções do Eterno, passou a traçar as divisas de seus
lares. Caim, sendo o primogênito, escolheu os campos floridos que estendiam-se
à direita do lar de seus pais; Ali , muito em breve, ergueria o seu altar.
Enquanto Caim e sua companheira permaneceram nos limites de seu futuro lar,
traçando planos para seu futuro, Abel e sua irmã mais nova acompanharam os
passos de seus pais até alcançarem aos campos que estendiam-se à esquerda do
altar de Adão. Estavam contentes, pois em sua ocupação pastoril, encontrariam
ali sempre verdejantes pastagens regadas por refrigerantes mananciais. Depois
de definirem o lugar sagrado do altar, onde sob o calor da primeira chama
viveriam a mais íntima união, Abel e sua companheira passearam felizes pelos
seus campos onde pastavam os cordeiros; Ali adoraram o grande Deus que, para
casar-se com a humanidade em eterna aliança de vida, Se faria cordeiro na
pessoa do Messias, para verter Seu sangue em sacrifício remidor. O alvorecer do
primeiro dia da semana despertou enfim aqueles noivos para uma semana que seria
de muitas atividades: Deveriam construir os altares e preparar seus novos
lares. Com ânimo iniciaram o trabalho, ajudados pelos pais. Depois de lavrarem
e prepararem os lugares determinados, reuniram as pedras com as quais
construíram cuidadosamente os altares. Prepararam em seguida suas moradas,
plantando arbustos para servirem de muro protetor. Esses preparativos se
estenderam até o quinto dia. Aguardavam agora o sexto dia, quando preparariam a
oferta para o altar - oferta que em sua aceitação os uniriam em sagrado
matrimônio. A luz do sexto dia finalmente raiou, trazendo um dia significativo
para aquela família. Caim e Abel, juntamente com suas companheiras, haviam sido
instruídos desde a infância sobre o caminho da obediência. Haviam também
recebido orientações diretas do Eterno com respeito ao verdadeiro sacrifício.
Agora, eram observados por todos os seres inteligentes do vasto Universo,
naquele dia de prova. Se atentassem para o caminho doloroso do cordeiro, seriam
unidos num casamento de significado solene; se rejeitassem seguí-lo, não
alcançariam a aprovação, nem tão pouco a benção que desejavam receber. Abel e
sua irmã mais nova, caminharam com alegria em direção ao rebanho, onde
escolheram o mais bonito cordeiro, tomando-o como oferta ao Senhor. Enquanto
isso, Caim e sua companheira, com determinação dirigiram-se aos pomares,
colhendo ali os mais belos frutos e flores, para oferecerem sobre o altar. O
Eterno e seus súditos entristeciam-se ante a atitude de Caim. A oferta que
preparavam, consistia numa demonstração de rebeldia diante do plano da
redenção. Rejeitando o sacrifício de sangue, estavam menosprezando o único
caminho pelo qual o ser humano poderia retornar ao paraíso da eterna vida. O
sol finalmente tombou no horizonte, trazendo em seu arrebol, como num último
apelo ao jovem Caim, a lembrança de seus passos naquele anoitecer em que
retornava ao lar. Teria ficado retido na selva naquela noite, não fosse a luz
do cordeiro sacrificado. Essa lembrança mergulhou-o em profunda luta íntima.
Seria aceita a sua oferta de flores e frutos?! Não seria melhor retroceder em seus
passos, tomando um cordeiro para o altar?! Invisíveis aos olhos de Caim,
legiões de anjos procuravam influenciá-lo em sua solene decisão. Em sua luta
espiritual, chegou quase a abandonar seus planos, mas seu orgulho repelia
repeliu finalmente essa opção: seria humilhante àquelas alturas, confessar
diante de sua irmã e de sua família, a inconsistência de sua teologia. Enquanto
contemplava no horizonte o último lampejo do arrebol, Caim rompendo com o apelo
do Espírito divino, reafirmou-se em sua decisão: Ofereceria flores e frutos em
lugar de um cordeiro, inaugurando uma nova modalidade de culto que, certamente,
poderia ser aceita pelo Eterno. As trevas baixaram lentamente sobre aquela
colina, até cobri-la em semelhança de um espesso manto. O momento era deveras
importante , pois decisões de vida e morte estavam por manifestar-se . O que
estava em jogo no posicionamento humano, era o destino do Universo. Nos passos
rebeldes de Caim e sua companheira, viam os seguidores do Eterno um grande
perigo que poderia dificultar e por em perigo o triunfo do plano da redenção.
Tomavam consciência naquela noite, de que Satã e suas hostes, procurariam
conduzir a humanidade para formas errôneas de culto, baseadas em filosofias
atraentes como aqueles frutos e flores colhidos por Caim, mas que em essência
seria uma negação do único caminho da salvação, representado pela morte do
cordeiro. Naquela noite, dois novos casais, movidos pelo mais profundo anseio,
apresentavam-se diante do Criador com suas ofertas. A aceitação divina descerraria
para eles um caminho de felicidade, em resposta aos seus mais acalentados
sonhos. Sua união sob a luz do altar, traria para eles um vislumbre das glórias
futuras - aquelas que serão desfrutadas pelos redimidos - a alegria de estarem
para sempre unidos ao Redentor, o amante Esposo da alma humana. A não aprovação
da oferta, traria amarga decepção, pois além de não receberem a benção do
Criador, teriam consciência de estarem trilhando por um caminho de rebeldia,
desligados do Autor da vida. Foi com um misto de alegria e tristeza, que Adão e
Eva dirigiram-se ao altar naquela noite, depondo sobre o mesmo a ovelha para o
sacrifício. Depois de tantos anos junto aos seus filhos, nos quais por palavras
e exemplo, procuraram mostrar o caminho da salvação, colhiam agora respostas de
obediência e desobediência. Estavam felizes por Abel, e tristes por Caim. O que
mais poderiam fazer por aquele filho rebelde?! Numa última tentativa de fazê-lo
reconhecer seu erro, Adão tomando nos braços sua oferta, tateou-se até
avizinhar-se do altar de Caim. Ali, com lágrimas a banhar a face, implorou com
seu filho a tomar aquela ovelha para o sacrifício. Se aceitasse os seus rogos,
veria surgir o fogo da benção divina, caso contrário, permaneceria mergulhado
nas trevas. Caim com arrogância, menosprezou a oferta de seu pai, afirmando que
o seu altar jamais seria maculados pelo sangue de inocentes animais. Ferido
pela rebeldia e ingratidão de seu filho, Adão retornou ao seu altar, onde
juntamente com Eva, continuaram intercedendo pelo futuro de seus filhos. O
momento da prova chegara. Todo o Universo estava atento. No coração de todos os
filhos da Luz havia um misto de alegria e tristeza: alegria pela oferta de
Abel, e tristeza pela confirmação de Caim no caminho da rebeldia. Semelhante a
seu pai, Abel ergueu com mãos trêmulas o cordeiro que não opunha resistência.
Desde a infância se apegara a esses inocentes e puros animais, vendo neles um
símbolo do Salvador. Seu apego aos cordeirinhos, levara-o a tornar-se pastor.
Ele estremecia ante a idéia de ter de sacrificar aquele animalzinho de
estimação, mas sabia que não haver outro caminho para se aproximar do Eterno.
Unicamente a sua morte poderia descerrar a chama da aceitação, da benção para o
seu casamento. Presenciara desde a infância o doloroso ato do sacrifício, mas
agora, quando suas mãos deveriam desferir o golpe, hesitava. Tomado por
profunda angústia ante seu dever, curvou a fronte em inconsolável pranto. Caim,
movido pelo anseio da união que seguiria à chama da vitória, ergueu as mãos
sobre as flores e frutos, invisíveis sobre aquele altar mergulhado na
escuridão. Seguro da aprovação divina, voltou os olhos para o céu, e contemplou
o fulgor das estrelas. Alegrava-se por saber que em resposta à sua oferta,
outra estrela surgiria para se unir àquelas com seu brilho. Adão com a mão
erguida chorava em sua prece, lamentando a perdição de Caim. Por que rejeitara
o cordeiro?! O que poderia mais ter feito, para fazê-lo compreender que o seu
caminho era de pecado?! Certo de que esgotara todos os meios para ajudá-lo,
Adão tombou a cabeça, após desferir o golpe mortal. A chama da aceitação
imediatamente iluminou-lhe a face marcada pelo pranto. Consolado pelo brilho da
chama que ardia sobre o altar de seu pai, Abel num esforço doloroso ergueu a
mão portadora do cutelo da morte - aquele que em sua queda descerraria-lhes a
benção imerecida, após causar a dor. Enquanto trêmulo e pálido permanecia ainda
hesitante em suas trevas, Caim do outro lado da chama de perdão acesa no altar
de seu pai, clamava pela luz divina. Confiante de estar agradando o Criador com
sua oferta, orava: - Senhor, Criador e Rei Universal, Teu reino é de luz e
alegria; Tu és como o sol que vitorioso percorre o céu, envolvendo toda a
natureza com o seu manto de luz, fazendo-a despertar colorida, em pujante vida.
A ti que com o Teu amor fazes brilhar o dia, unindo sob teus raios toda a vida,
trago estas flores e frutos que são produtos dessa união. Aceita-os como
símbolos de nossa vitória, e faça brilhar sobre nosso altar a chama da eterna
benção". Abel, movido por uma profunda dor, cravou finalmente no peito do
cordeiro aquele instrumento de morte, fazendo-o adormecer para sempre. No
impulso do golpe, prostrou-se ao solo onde agonizante demorou, refletindo no
significado daquele sacrifício. Podia agora compreender a agonia que seu pai
experimentava em todas aquelas noites de sacrifício. Caim que silente aguardava
a resposta de sua prece, inquietou-se pela demora. Sua inquietação tornou-se
finalmente desespero, ao ver surgir além à chama da benção descendo sobre o
altar de seu irmão. Tomado então por emoções de tristeza e ira, bradou aos
céus: - Senhor, Senhor, não me ouves?! Não me respondes?! Seus rogos, porém,
não trouxeram nenhuma resposta além de um eco vazio, perdido naquela noite.
Vencido pela vergonha da tragédia, Caim prostrou-se, revolvendo-se em
inconsolável pranto. Satã exultou ao testemunhar o desespero de Caim que, com
gemidos maldizia o Criador por não haver se manifestado sobre o altar.
Festejava por ter conseguido através do engano levar Caim novamente a
manifestar diante do Universo sua rebeldia. Estava contente também em ver que
Caim não estava sozinho em sua queda, mas tinha sua irmã a seguir-lhe os
passos. Agora, lutaria para mantê-los cativos sob o seu poder, tornando-os
inimigos declarados do Eterno e de seus seguidores. O Criador, embora
entristecido pela desobediência de Caim, alegrava-se em poder honrar diante do
Universo aquele casal obediente que, no cordeiro imolado, via a promessa de um
Redentor que no futuro nasceria para redenção de todos os pecadores que o
aceitassem. Abel e sua companheira após consolarem-se da dor do rude golpe,
banhados pelos raios aquecidos daquela chama, uniram-se em sublime ato de amor,
esse que poderia gerar vida. Adão e Eva que penalizados já haviam previsto a
dura decepção de Caim e sua companheira, atraídos pelos seus gemidos,
apalparam-se nas trevas, até avizinharem-se de seu altar sem vida. Ali, movidos
por grande desejo de mudar-lhes a sorte, procuraram convencê-los a oferecerem
um cordeiro; O tempo ainda lhes era oportuno e se quisessem, poderiam buscar
nas pastagens o rebanho, tomando um cordeiro para o altar. Impulsionados pelo
orgulho, Caim e sua irmã rejeitaram os conselhos dos pais que somente queriam a
felicidade deles. Remoendo em lamúria sua amarga decepção, Caim permaneceu o
restante da noite a revolver-se em insônia. Em seus sentimentos e pensamentos,
sobrevinham agora as sombras do ódio e da vingança. Estava irado contra o
Criador, por haver rejeitado sua oferta. Contemplando ao longe a chama da
aprovação, sob a qual Abel e sua companheira viviam sua feliz união, Caim
encheu-se de indizível inveja que explodiu dentro dele num furor sem limites.
Lá estava o filho preferido - aquele a quem não tolerara desde a infância. Por
que seria ele mais digno?! Por que poderia gozar maiores privilégios?!
Inspirado pelo espírito maligno, quando o sol já estava quase raiando, Caim
começou a maquinar um terrível crime. Disse para si: - Se eu não sou digno de
viver sob a luz da benção divina, nem tão pouco o meu irmão será; Aguardarei o
momento oportuno, para apagar de seus olhos todo o brilho da felicidade. O sol
finalmente raiou revelando com sua luz a face transtornada de Caim. Que
mudança! Não brilhavam os seus olhos de felicidade ao entardecer?! Todas as
hostes da luz preocupavam-se com a situação infeliz de Caim. Sabiam que em sua
decidida rebelião, Satã o afundaria cada vez mais em maior desespero. O Criador
conhecendo os planos malignos de Caim, manifestou-se a ele no alvorecer, com o
propósito de ajudá-lo a compreender sua necessidade. Invisível aos demais da
família, o Eterno dirigiu-se a Caim e, estendendo sobre ele Sua mão amiga,
perguntou-lhe: - Filho, por que você está tão irado?! Em resposta, Caim
apontando para o altar coberto de flores e frutos, respondeu: - Estou magoado
por não teres aceito essa oferta que ofereci com tanta fé. Com palavras cheias
de compaixão, o Criador explicou-lhe novamente a necessidade humana da
salvação, a qual somente poderia ser alcançada mediante o Seu sacrifício, que
era simbolizado pela imolação do cordeiro. Disse-lhe que sua oferta de gratidão
somente poderia ser aceita, após o sacrifício de sangue. Não conformado com as
palavras do Eterno, Caim procurou justificar-se. Suas palavras, contudo, que
revelavam a grande mágoa de um orgulho ferido, foram finalmente interrompidas
pelos conselhos finais de Deus, que estendia-lhe uma única oportunidade, para
romper com sua escravidão espiritual: - Somente há um caminho Caim , que é de
sacrifício. Se você proceder conforme o seu irmão, será também aceito e
abençoado com a chama da benção; Se, todavia, proceder mal, terá selado o seu
destino das garras da morte. Após afirmar solenemente essas palavras, o Eterno
despediu-se de seu filho, tornando-Se invisível.
A História do
Universo Capitulo IX
As palavras do
Eterno mergulharam Caim na mais terrível luta íntima. De um lado Satã e seus
exércitos esforçavam-se em detê-lo em sua escravidão, do outro Deus e suas
hostes, procuravam despertar naquele coração em luta, o reconhecimento do único
caminho para a salvação. Caim, agitado em seus pensamentos e torturado pelo
peso de responsabilidade que repousava sobre si, pois seus passos seriam
seguidos por muitos outros, chegou, por vezes, a pensar em render-se, tomando
para si um cordeiro. Mas esse pensamento, logo era banido, dando lugar a outro,
de ódio e vingança. Em sua agonizante luta, quando o sol já caminhava para o
poente anunciando outra escura noite, Caim vencido pelo orgulho tomou trágica
decisão: Jamais aceitaria o plano da redenção simbolizado pelo cordeiro sobre o
altar. Essa decisão, qual seta dolorosa rasgou o coração do Eterno e de suas
hostes. fazendo-os prostrar em triste lamentação pela perdição daquele filho
amado. Era terrível pensar que muitos no desenrolar o grande conflito pelo
trono do Universo, haveriam de seguir os passos de Caim!. Cessada a batalha,
Caim ergueu-se com um sorriso maldoso nos lábios. Não teria mais conflitos em
sua consciência! Não seria mais perturbado pela idéia do sacrifício! Lutaria
agora, e construiria com sua sabedoria e força, um paraíso de paz e
prosperidade. Mais uma noite surgiu, trazendo com suas trevas a insônia de uma
aventura louca, desumana e cruel, que agora era planejada por Caim. Com o
coração dominado pelo mal, dizia para si naquela noite, que era a primeira da
semana: - Assim que raiar o dia, visitarei o lar de Abel. Fingindo estar
arrependido, pedirei dele um cordeiro para o meu altar. Pedirei que ele me
acompanhe até o rebanho, que pernoita em pastagens distantes; Sei que ele de
boa vontade me atenderá. Quando em nossos passos, nos encontrarmos distantes de
seu lar, eu o farei compreender a dor sentida pelos cordeiros. Depois de
matá-lo, o esconderei na floresta, longe do alcance dos olhos de sua companheira
e de seus pais. Comemorarei então o seu fim, unindo-me à minha companheira,
como ele o fez após a morte do cordeiro. Quando surgir o entardecer - esse que
com seu arrebol não trará mais Abel para o seu lar- fugirei com minha irmã para
o vale de onde regressei outrora, e de lá jamais voltarei a essa colina hostil,
onde cordeiros perecem sem culpa. Caminharemos assim até alcançarmos o berço da
luz, que estende-se nas campinas do Éden. Ali, longe dos rogos e conselhos
desse meu intolerável pai, oferecerei ao Senhor da luz, cultos de flores e
frutos : produtos que nascem sob seu brilho. O sol em sua marcha oculta,
anunciou no horizonte distante os sinais do amanhecer, num clarão que,
refletido por uma nuvem, tornava-a parecida a um manto banhado em sangue. Caim
que trazia nos olhos as marcas da insônia, ocultou à sua companheira o motivo
que não o deixara dormir. Sorriu simplesmente após ver surgir o sol, e saiu
prometendo regressar assim que sacrificasse no campo um cordeiro. Achando
estranha sua atitude, sua irmã perguntou-lhe o por que de não oferecer a oferta
sobre o altar. Ele desculpou-se dizendo que manteria seu propósito jamais
macular o seu altar com sangue de inocentes animais, mas cumpriria a vontade
divina, sacrificando um cordeiro para alcançar a benção sobre o seu matrimônio,
mas o faria distante, no campo. Após cumprir esse compromisso, retornaria para
ela, e seriam a partir de então uma só carne. Abel alegrava-se naquela manhã ao
lado de sua amada que, com um sorriso despertara como de um sonho, reclinada ao
seu peito, onde pulsava um coração o qual não podia ela imaginar, enviaria
naquele dia, num último esforço, a seiva da vida, para não mais retornar. Abel
seria como um cordeiro sobre o altar. Depois de cingir-se com o instrumento da
morte, Caim com passos movidos por uma decisão que não seria revogada, ladeou a
casa de seus pais, aproximando-se do lar de Abel que, ainda aos pés do altar,
permanecia com sua companheira, trocando juras de um amor eterno. O olhar de
ternura de Abel, sob o brilho do alvorecer trouxe para aquela jovem uma
lembrança que a comoveu. Acariciando sua face coberta pela barba macia qual lã,
com os lábios trêmulos de emoção, sussurrou-lhe: - Querido, o seu olhar é para
mim como o olhar de um cordeiro: me traz segurança, paz e esperança. Sou grata
por poder contemplar esses olhos em que brilha o amor! Tudo o que eu quero, é
que eles jamais se fechem para mim! Com emoção Abel beijou sua companheira
depois de ouvir suas palavras de carinho, e respondeu-lhe com um sorriso: - Querida,
somente a morte os poderá fechar; mas mesmo a morte não poderá serrá-los para
sempre, serrá-los pra sempre, pois no alvorecer eternal, eles se abrirão para
você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra! Abel dizia essas
palavras, quando os passos de Caim se fizeram ouvir em aproximação. Ao
ouvirem-no chamar por Abel, saíram-lhe ao encontro, e ficaram felizes ao vê-lo
expressar sua decisão de sacrificar um cordeiro. Como não possuía rebanho,
desejava adquirir um de seu irmão. Abel prontamente autorizou-o a tomar de seu
rebanho, não somente uma ovelha, mas quantas precisasse, até que formasse o seu
próprio rebanho. Caim, com um sorriso agradeceu-lhe a dádiva, mas acrescentou:
- Meu caro irmão, não aprecio abusar de sua bondade, mas eu gostaria
imensamente que você me acompanhasse até o rebanho, pois as ovelhas certamente
fugirão de mim que não sou pastor. Abel consentiu de boa vontade em
acompanhá-lo. Abraçou então sua companheira, prometendo logo regressar -
promessa que em dor veria desfazer-se no seu corpo ferido e em seus olhos a
escurecer em sangue, semelhante ao triste arrebol que não o traria de volta
para os braços de sua amada. Abel alegrou-se ao saber que seu irmão tomara a
decisão de sacrificar um cordeiro. Enquanto caminhavam rumo ao rebanho,
conversavam sobre a experiência do casamento: benção alcançada mediante o
sangrento sacrifício. Quando já estavam distantes de seus lares, avistaram o
rebanho que pastava sob o sol matinal. Abel adiantou-se em seus passos fazendo
soar sua voz de pastor. As ovelhas de uma só vez ergueram a cabeça, olhando na
direção do bom pastor. Caminhando em direção ao rebanho, Abel pediu a seu irmão
que o aguardasse naquele lugar enquanto tomaria um cordeiro gordo para o seu
altar. Não ouvindo resposta de Caim, Abel olhou para traz, e surpreendeu-se ao
ver que o semblante de Caim estava transtornado e seus olhos não expressavam
gratidão, mas ira. Abel voltando-se para ele, perguntou-lhe o por que de sua
infelicidade. Disse-lhe que Deus o amava, e visto que estava decidido a
oferecer-Lhe um cordeiro, o seu casamento seria abençoado e desfrutariam paz na
alma. Em resposta às palavras amorosas de Abel, Caim disse-lhe friamente: -
Você é o cordeiro que eu quero sacrificar" Depois de fazer-lhe esta cruel
declaração, Caim tirou do interior de sua veste uma faca de pedra e avançou
sobre o seu irmão que, pálido rogava-lhe, desferindo-lhe um profundo golpe na
face. O sangue imediatamente jorrou como de um cordeiro, fazendo Abel
estremecer de medo. Teria já chegado o dia de depor a vida?! Enquanto com um
gemido indagava, sentiu outro golpe que em sua violência o fez tombar ao solo.
Em sua mente atordoada pela dor, num último esforço de sua consciência,
lembra-se daquelas juras de amor trocadas no alvorecer. Em seu delírio de
morte, parecia ouvir sua amada dizer-lhe com os lábios trêmulos pela emoção: -
Querido, o seu olhar é como o olhar de um cordeiro...; Tudo o que eu espero, é
que eles jamais se fechem para mim! Revive assim com esforço, seu último beijo
acompanhado por sua promessa que a fez sorrir: - Somente a morte os poderá
fechar; mas mesmo ela não os poderá serrar para sempre, pois no alvorecer do
dia eternal eles se abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito
por essa sombra. Após lembrar este juramento de amor, Abel vencido por um golpe
fatal, mergulhou na inconsciente treva, seguro de que em breve essa sombra
seria banida de seus olhos, no dia da ressurreição. Caim somente cessou de
golpear seu irmão, depois de certificar-se de que ele estava realmente sem
vida. Arrastou-o então até a floresta, deixando-o ali coberto com folhagens de
capim. Retornando para sua casa, Caim mostrou à sua companheira as marcas de
sangue em suas mãos, e disse que atendera o pedido divino, sacrificando um
cordeiro. Agora, estavam livres para se unir sob a benção do Senhor. Vencidos
pela paixão carnal, uniram-se então sob o brilho daquele sol que já não
brilhava para Abel. Quando o sol tingia o horizonte com seu arrebol, Caim
lembrando-se de seu crime levantou-se sobressaltado, e disse para a sua
companheira que em seu sacrifício, prometera ao Senhor da luz apresentar suas
flores e frutos como uma oferta de gratidão pela benção alcançada. Essa oferta
deveria ser oferecida nas divisas do Éden por ocasião do alvorecer. Precisavam,
portanto, partir imediatamente. Sem questionar a vontade de seu marido, aquela
jovem reuniu apressadamente suas vestes e a oferta de gratidão, e partiram para
dentro da noite. Caim tinha pressa, pois sabia que a ausência de Abel naquela
noite, traria a revelação de seu crime, o qual pretendia para sempre ocultar de
sua esposa. Banhada pela luz do arrebol, aquela jovem esposa sorria, certa de
que abraçaria o seu Abel antes da noite. Contemplando o sol em seu declinar
sobre as campinas de onde esperava vê-lo regressar, com saudade lembrava do
alvorecer que em sua luz revelara os olhos de seu esposo, compassivos como os
de um cordeiro. Emocionou-se ao lembrar do pedido que num sussurro lhe fizera:
- Tudo o que eu quero é que seus olhos jamais se fechem para mim. Lembra-se de
sua resposta carinhosa: - Querida, somente a morte poderá fechá-los; mas mesmo
essa não poderá cerrá-los para sempre, pois no alvorecer eternal eles se
abrirão para você com um brilho que jamais será desfeito por essa sombra".
Com essa lembrança, a jovem esposa viu enfim o sol mergulhar em seu túmulo de
morte e vida, envolvendo com seu último clarão a campina vazia e seu coração
que a pulsar com saudade, permaneceria também vazio. Franzindo a testa com
preocupação, aquela jovem indagava: - Por que não vem o meu amado?! Movida pelo
anseio, correu até a casa de seus pais, onde imaginava o encontrar. Chamando-o,
porém, não ouviu nenhuma resposta além do ruído dos passos de seus pais que,
curiosos saíram-lhe ao encontro , indagando: - Filha, você está procurando por
Abel? Ele ainda não chegou? -Não,- respondeu a filha, já com lágrimas nos
olhos, - ele ainda não chegou! Embora preocupados, aqueles pais abraçaram a
filha procurando consolá-la, dizendo que ele logo estaria em seus braços. Em
sua preocupação velada, perguntaram então à filha: - Já faz tempo que ele saiu?
- Logo após despertarmos, no alvorecer - respondeu. A esta resposta, seguiu um
silêncio de inquietantes indagações, enquanto juntos tentavam divisar em vão
seu vulto sob aquele prado banhado pelo último rastro de luz. Suspirando
profundo, Adão já suspeitando um possível mal, indagou de sua filha: - Ele saiu
sozinho? Soluçando ela respondeu: - Caim nos despertou pela manhã, pedindo um
cordeiro, e Abel saiu com ele. Preocupado, Adão saiu silencioso e dirigiu-se à
casa de Caim. Chamando ali por ele, não ouviu nenhuma resposta. Rompeu então
através das folhagens para o interior daquela cabana, onde leu no triste vazio
um presságio doloroso de traição , confirmado numa veste manchada de sangue,
apagando-se na penumbra. Vencido pela angústia, Adão caiu ao solo rompendo-se
em pranto; Não querendo, contudo, revelar seu desespero à sua filha e esposa
que precisavam de consolo para vencerem aquela triste noite, Adão num esforço
imenso enxugou as lágrimas e firmou-se contra as emoções, ao ouvir os passos
delas em aproximação. Do lado de fora, Eva e sua filha esperançosas de
encontrarem ali Abel em visita a seu irmão, indagou: - Eles estão aí papai? A
voz esperançosa de sua filha em meio àquela noite, foi qual seta a sangrar seu
coração, e temia responder sua pergunta. Finalmente, caminhou na direção de sua
filha, e vendo-a sofrer pela ausência de seu companheiro, procurou consolá-la
dizendo: - Filha, confie no poder do Criador. Ele cuidará dele, e o trará no
alvorecer! As palavras de consolo de Adão, contudo, longe de suavizarem o
pranto daquela jovem, mergulhou-a em maior sofrimento, fazendo-a reviver em
lembranças as promessas de Abel proferidas naquela manhã; Ele havia dito que se
algum dia os seus olhos fossem apagados pela morte, eles se abririam para ela
no alvorecer do sábado eterno. Caim e sua companheira em seus passos apressados
de fuga, encontraram-se finalmente distantes da colina, mergulhados naquele
vale de trevas que jamais entregaria de volta àquelas pais sofredores seus
filhos rebeldes. Caim agora, ao lado de sua esposa, ufanava-se zombando das
trevas, prometendo desfazê-la em breve com sua força. Vencidos pelo cansaço,
tombaram ao solo, onde adormecidos ficaram até serem despertos pelo alvorecer.
Refeitos da fadiga, continuaram a jornada pelo caminho da aventura, em passos
que faziam Caim se lembrar daquela caminhada interrompida pela incoerência.
Quão tolo havia sido, pensava, em dar ouvido a voz do anjo! Se houvesse
continuado em sua missão, possivelmente já teriam um paraíso banhado por uma
eterna luz. Entardecia quando o casal fugitivo alcançou o vale de ossos, lugar
em que Caim outrora sentira grande medo. Ao passar por aquele lugar, Caim
estremeceu. Temia agora não as trevas que lentamente baixavam sobre o vale, mas
a luz. Percebendo o seu temor, sua companheira perguntou-lhe: - Você está
temendo as trevas? - Estou temendo a luz, respondeu Cai: - Aquela que me fez
caminhar rumo à morte. Não entendendo o que ele queria dizer, sua companheira
insistiu para que ele esclarecesse o mistério. Com impaciência, Caim revelou
que estavam nas divisas do Éden; lugar onde encontrou-se outrora com o anjo.
Tendo dito isto, apontou para a esquerda acrescentando: - Sigamos nesta
direção, pois não quero encontrá-lo novamente. Tomando-a pelo braço, caminharam
rápidos, aproveitando a última luminosidade do arrebol. Quando enfim seus
passos não podiam ser dados sem dificuldades por causa das trevas, contemplaram
por entre as ramagens um brilho que, mais intenso que o do sol, permaneceu por
um momento, desvanecendo-se. Imóvel ao lado de Caim, suas esposa, curiosa
indagou: - Você viu? - Sim , respondeu Caim a tremer. - O que será? A essa
indagação, Caim não respondeu, simplesmente tomou-a pela mão e disse: -
Voltemos. Fujamos dessa luz que nos poderá matar. Sem compreender o mistério, a
jovem esposa o seguiu em passos rápidos que, aqui e acolá, eram impedidos por
tropeções que os lançavam ao chão. Nessa fuga, porém, não conseguiram
esquivar-se do brilho que surgiu-lhes mais forte diante dos olhos. Enquanto
espantados tentavam num último esforço fugir noutra direção, foram detidos por
uma forte mão que, desvendando os seus olhos, revelou diante deles a face do
Eterno, mais brilhante que o sol. Não sabendo como encará-Lo em Sua luz de
justiça, Caim temendo ser castigado pelo seu crime, curvou a cabeça entre as
mãos. O Criador indagou-lhe então com seriedade: - Onde está Abel o seu irmão?!
Como insistisse nesta pergunta, Caim envergonhado por ter de confessar o seu
terrível crime diante de sua companheira, de quem queria ocultar, respondeu
simplesmente: - Não sei. Sou eu o guardador de meu irmão?! Indignado por esta
resposta de desprezo e irresponsabilidade, o Eterno disse-lhe com firmeza: -
Que fizeste Caim! A voz do sangue do seu irmão clama a mim desde a terra. Agora
- continuou Deus - maldito será nesta terra que recebeu o sangue inocente de
seu irmão. Com voz cheia de tristeza, o Eterno continuou: - Até este dia, o
cobri de bênçãos, fazendo prosperar o seu labor na terra, dando-lhe prazer
nesta realização; desde agora, já não poderei abençoá-lo, pois pela espontânea
rebeldia você cerrou os canais desta benção. Por isso, caminhará sempre
vagabundo sobre esta terra amaldiçoada por sua culpa, fugitivo da luz desta face
que sempre sorriu-lhe perdão e salvação, até tombar vencido pela rebeldia
dentro da eterna noite. Depois de revelar sua triste e irremediável situação, o
Criador ergueu a voz e chorou amargamente. Duro Lhe era despedir para a morte
aquele filho amado que, pela insistente rebeldia selara seu destino eterno.
Caim todo trêmulo, tomado pelo medo e horror pela sua deplorável condição, com
desespero clamou a Deus: - Volta Senhor, volta! Conceda-me somente uma benção!
Movido pelo Seu infinito amor, o Eterno tornou-se para Caim que trêmulo Lhe
falou de seu temor: - Tenho medo dos perigos da floresta, e daqueles que
quererão no futuro procurar-me para vingar o sangue de meu irmão que
derramei". O Criador teve compaixão de Caim, prometendo-lhe proteção. Como
sinal dessa promessa, acariciou-lhe a face, fazendo-lhe desaparecer a abundante
barba. Depois deste gesto de pai amoroso que acaricia o filho mesmo na eterna
partida, Caim viu desaparecer diante de seus olhos o brilho daquela face
banhada pelas lágrimas, produzidas por sua ingratidão. À noite de desespero e
pranto foi finalmente foi banida pelo brilho de um novo alvorecer que com sua
luz revelaria uma tristeza ainda maior. Antes mesmo que o sol mostrasse sua
face sobre o vale oriental, a jovem viúva juntamente com seus pais caminharam
apressados pelos campos rumo às pastagens onde o rebanho pastava naqueles dias.
Com o coração ainda a palpitar esperança, avistaram ao longe o rebanho.
Chamaram ali por Abel, mas suas vozes não trouxeram nenhuma resposta além de um
eco vazio. Seus olhos discerniram então através das lágrimas, as marcas da dor,
naquele gramado amassado e coberto de sangue. Vencidos pela tristeza, seguiram
dolorosamente as manchas de sangue, até encontrarem o seu corpo dilacerado, sob
aquele capim coberto de moscas. Diante desta cena de terrível humilhação,
ergueram as vozes em gritos de pavor, não suportando a dor da separação. Ali
permaneceram em agonia, até verem o sol tombar em seu mais melancólico
entardecer. Quão dolorosa lhes era o pensamento de terem de regressar para
casa, deixando ali o amado Abel a desfazer-se em sua fria noite. Lembrando de
sua infância, quando em seu leito o cobriam com amor, prometendo despertá-lo no
alvorecer com um beijo, aqueles pais com um doloroso esforço o cobriram novamente
com aquele capim, com a certeza de que no alvorecer do dia eterno o beijariam
em seu em seu despertar feliz. Com dificuldade deixaram finalmente aquele lugar
já tomado pela noite e apalparam-se na direção daquelas casas vazias, cujas
paredes floridas já não traria para eles alegria. Vencida pelo horror da dura
revelação, a esposa de Caim prostrara em desmaio, vindo a despertar pouco
depois da partida do Eterno. Ali em meio às trevas, lembrou-se da terrível
revelação de Deus, e ficou possuída por grande medo. Temia não somente as
trevas, mas principalmente a Caim. Pensou em gritar por socorro; mas quem a
salvaria?! Dominada por esses sentimentos, ficou atenta, esperando pelo
amanhecer que revelou ao seu lado o corpo adormecido de alguém que não se parecia
com Caim. Assustada, temendo despertá-lo, afastou-se alguns passos
recostando-se num tronco de árvore, onde permaneceu até vê-lo levantar a face
lisa , chamando por ela. Reconhecendo ser a voz de seu esposo, moveu-se em sua
direção, mas logo deteve-se dominada pelo receio. Indagando em seu coração
sobre o mistério de sua face agora lisa, disse-lhe: - Tenho medo de
aproximar-me de você! Depois de expressar o seu temor, revelou outro maior: -
Tenho também medo de fugir de você! Erguendo-se com um sorriso, Caim
perguntou-lhe: - Por quê você me teme? - Porque temo a morte, respondeu aflita.
- Eu também, até ontem era como você, tinha medo da morte, disse-lhe Caim. -
Agora não a teme mais? Indagou-lhe sua esposa. - Não a temo, respondeu Caim,
passando a mão no rosto liso. - Mas o que baniu-lhe o seu temor? Perguntou-lhe
a jovem, temendo ainda aproximar-se. - Vê minha face agora lisa? Este é o sinal
de uma promessa feita pelo Senhor. - Qual promessa? perguntou-lhe sua
companheira, aproximando-se agora sem receio. Caim falou-lhe então da benção
prometida e confirmada naquele sinal, da qual partilharia também ela, se o
seguisse em seus passos. Não encontraria segurança e vida, contudo,
ausentando-se dele. Consolada pela promessa de proteção garantida no rosto liso
de seu esposo, aquela jovem o seguiu numa longa caminhada em contorno ao Éden.
Planejavam transpô-lo, alcançando o vale oriental que estendia-se para além de
seu impenetrável prado; Ali construiriam um altar estabelecendo o seu novo lar.
Caim e sua companheira alcançaram finalmente em sua jornada um vale que,
coberto por densa floresta estendia-se ao oriente do paraíso. Ali naquele
ambiente de aparência hostil teriam temido não fosse a promessa assinalada na
face de Caim. Almejando encontrar além um lugar melhor, construíram ali um
altar provisório, onde no alvorecer do primeiro dia de uma nova semana,
ofereceram ao Senhor revelado na face do Sol, flores e frutos - símbolos de
fecundidade. Sob a luz do alvorecer uniram-se novamente naquele ato comemorativo
da vitória que julgavam haver encontrado. Depois de unir-se à sua mulher, Caim
ergueu-se ante o altar dedicando ao Senhor representado pelo sol, o seu lar.
Pediu que os tornassem fecundos para darem a muitos filhos o direito de
contemplar-lhe a face de brilho. Caim concluiu sua prece de consagração, com
uma promessa confirmada por um sinal, dizendo: - Se atentares para a nossa
súplica, trazendo em teu brilho fecundidade, construiremos por onde andarmos
altares em honra a ti, onde o adoraremos com ofertas de gratidão. Como sinal de
nossa fidelidade, consagraremos para o teu culto, este dia que nos unes sob tua
luz, o qual chamaremos pelo teu nome: O DIA DO SOL.
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